Tuesday, September 30, 2008

Carta ao professor / Em prol de Caetano

Caríssimo professor João Armando Nicotti:

Sei que a chance de leres isso é a mais ínfima. Contudo, minha profunda decepção em relação a ti não me permite prmanecer calada. Venho aqui a falar sobre a tua lamentável comparação entre Chico Buarque de Holanda e Caetando Veloso, repleta de sarcasmo (como de hábito) e deboche.

Primeiramente, admito a grandiosidade do Chico. Sua capacidade literária é incontestável, como se vê em letras como “Cálice”, “Joanna Francesa”, “Ana de Amsterdam”, “Construção”, “Roda-viva”, “Até o Fim” e infinitas outras. Mas é exatamente esse o ponto: como é possível alguém indignar-se diante do fato de que Chico não é chamado para cantar na tevê, se ele é um grande compositor, mas não cantor? Até canta, mas convenhamos que não é o forte dele. Eu, por exemplo, tenho uma preferência enorme por suas músicas interpretadas por cantores como Nara Leão, Elis Regina, Ney Matogrosso ou Mônica Salmaso. Por isso, querido professor de literatura, compreendo que prefiras ele em relação a Caetano, afinal, sua poesia é, normalmente, superior (o advérbio é empregado, pois Caê também tem letras fantásticas). Não achas óbvio que tenham preferência para chamar um bom cantor na hora de interpretar Tom Jobim na homenagem à bossa nova? Se quisessem que fosse criada uma canção homenageando-o, tudo bem, chamem Chico. Porém, não para cantar, por favor.

Além de ter criticado a escolha de Caetano para fazer parzinho com Roberto Carlos, o Senhor Professor criticou a popularidade do primeiro, afirmando esse ser um cantor global. Pergunta: o fato de alguém ter suas músicas em trilhas sonoras da globo ou aparecer cantando nessa emissora tira sua qualidade musical? Creio que não. Até porque, gênios da música como Tom Jobim freqüentemennte tem suas canções como aberturas de telenovelas e não por isso eles perdem sua excelência. Pra ser bem sincera, acho isso RECALQUE.

Mas se o grande *Ruski, não tolera a arte facilmente digerível, posso indicar alguns discos menos comerciais do caetano. Que tal Araçá Azul? Na minha opinião, suas músicas exigem mais do ouvinte que qualquer uma do Chico Buarque que eu conheça.

O problema é que as pessoas tem uma dificuldade imensa em compreender a capacidade de auto-reciclagem de artistas como esse baiano. Preferem o que é constante, como o carioca filho de Sérgio Buarque de Holanda. Não encaram bem as milhares de fases por que Caetano passou, sempre absorvendo como uma esponja diversas culturas, sempre se renovando, sempre surpreendendo, com suas múltiplas facetas. Caetano nunca é igual. Caetano é artista.

Já Chico, esse não é muito ligado às surpresas, no sentido de se renovar. Ele surpreende-nos, sim, com sua genialidade, com suas rimas e com sua capacidade de colocar letra em qualquer composição que lhe entreguem (desde que essa seja de bom nível). Contudo, não transita muito pelos gêneros musicais. Não é adepto às guitarras. Não mistura ritmos. Não é amigo do experimentalismo. Chico segue em linha reta. Chico é poeta.

Por isso entendo que alguns prefiram-no. No entanto, acho que, por uma questão de respeito, não se deve debochar de um gigante, ainda que se tenha predileção por outro. Não se pode falar do inventor (juntamente com Gilberto Gil) do Tropiocalismo, como se ele não tivesse um passado tão fabuloso. Como se ele não tivesse revolucionado a música brasileira. Como se ele não tivesse enxergado muito antes o que ninguém via, valorizasse nossa cultura e a mesclasse com estrangeirismos com tamanha genialidade, a qual o povo só foi reconhecer tempos depois de sua consagração (sem falar nos que ainda não reconheceram...).

Também achei de uma ignorância meu professor ter mencionado a crítica política de Chico Buarque defendendo sua superioridade em relaação a Caetano nesse aspecto. Sim, Chico escreveu “Cálice”, cantou “Cale-se”. Mas reconheça, por favor, que Caetano não foi nenhum alienado nesse período. Pelo contrário, foi preso, exilado! Pode não ter composto muitas músicas voltadas para o debate político, mas suas atitudes e suas palavras fora do palco devem ser lembradas como atos de descontentamento e rebeldia. Além do mais, rebelar-se contra a ditadura não significa apenas compôr contra essa, mas também criar uma sonoridade livre, demonstrando-se, por conseguinte, contra qualquer tipo de conservadorismo vigente.**

Por último, o argumento mais lamentável utilizado pelo professor João Armando Nicotti foi sua crítica às preferências sexuais do meu amado cantor: disse que respeitava sua bissexualidade (acho que ele falou HOMO, o que é mais uma mentira), mas não compreendia sua atração por ACM e , portanto, não poderia levá-lo a sério. Ouquei, sôr, se é por isso, afirmo: até entendo que Chico aprecie futebol, mas... ser tricolor? Isso não....!
*Ruski, de russo: é um dos apelidos do professor, devido a seu gosto pela literatura russa.
(uma prova da "falta de engajamento" político do meu baiano...)





Sunday, September 07, 2008

Paródias

1)Manuel Bandeira x Júpiter Maçã






Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei



Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive



E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada



Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar



E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

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Um lugar do caralho


Eu preciso encontrar
Um lugar legal pra mim dançar
E me descabelar
Tem que ter um som legal
Tem que ter gente legal
E ter, cerveja barata
Um lugar onde as pessoas sejam mesmo afudê
Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho


Sozinho pelas ruas de São Paulo eu quero achar alguém pra mim
Um alguém tipo assim:
Que goste de beber e falar,Lsd queira tomar e curta
Syd Barrett e os Beatles
Um lugar e um alguém que tornarão-me mais feliz
Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho
Um lugar do caralho



2) Gonçalves Dias x Gilberto Gil






Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.


Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

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Back in Bahia
Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui
Vez em quando, quando me sentia longe, dava por mim
Puxando o cabelo nervoso, querendo ouvir Celly Campelo pra não cair


Naquela fossa em que vi um camarada
Meu de Portobello cair
Naquela falta de juízo que eu não
Tinha nem uma razão pra curtir
Naquela ausência de calor, de cor, de sal,
De sol, de coração pra sentir
Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim
Digo num baú de prata porque prata é a luz do luar
Do luar que tanta falta me fazia junto do mar
Mar da Bahia cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar
Tão diferente do verde também tão lindo dos gramados campos de lá
Ilha do Norte onde não sei se por sorte ou por castigo dei deparar
Por algum tempo que afinal passou depressa, como tudo tem de passar
Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá




Monday, September 01, 2008

A imprensa anda cada dia mais "divertida"...

1. Por que a imprensa odeia tanto o Caetano?! Só pode ser dor de cotovelo... O cara respira e já arranjam uma implicância nova. Parece até que estamos de volta aos anos 60-70, quando achavam que tudo que ele dizia ou fazia era subversivo, contra o país... Prmeiro passam a julgar ele por um momento de fraqueza que ele teve ao se irritar com aincompetância da Emetevê em um show. Depois, distorcem completamente o que o homem disse quanto aos candidatos à presidência doe Estados Unidos, levando a afirmação "Prefiro preto à mulher" pro lado sexual, quando tratava-se de um comentário em relação ao modo de governar de cada um (posteriormente ele modificou a frase:“Talvez eu tenha dito que prefiro à causa dos negros à causa das mulheres”). E agora, deram pra falar mal do show dele com o Roberto. Ok, criticar arte também faço, mas que critiquem direito!

Para mais informações, o blog do mestre:
www.obraemprogresso.com.br



2.Estou seriamente pensando em assinar a Veja. Assim, quando estiver querendo me divertir, tenho algo pra ler... Para quem está atrás de diversão, recomendo a Veja da semana retrasada, entitulada "O inssino no Brasiu è otimo". Abrindo a revista, espera-se uma crítica à qualidade do ensino brasileiro em termos de formação de lógica e, principalmente de expressão escrita. No entanto, a reportagem surpreende, criticando a falta de formação dos professores, principalmente os de esquerda(ou não de extrema direita) e a "doutrinação" que estes fazem com os alunos (em momento algum se fala que os estudantes mal sabem escrever, como sugere a capa). A palavra aparece entre aspas, pois a revista passa a considerar a equação formar=doutrinar, alegando que todos os educadores que acreditam ser mais importante formar cidadãos a simplesmente ensinar a matéria, serem doutrinadores (pelamordedeus!!!!).
A reportagem possui uma série de equívocos,como quando afirma que atualmente as máquinas não tiram mais empregos e que dizer que o fazem é não capacitar os alunos para o mundo em que vivemos, em que a tecnologia é reponsável por muitos empregos(a matéria coloca, inclusive, que no século dezenove a industrialização foi responsável por tirar nove em cada dez pessoas da pobreza). Ela faz isso no intuito de criticar um professor anchietano que, ao ensinar Revolução Industrial , explicou que o desemprego até hoje pode ser causado por melhorias tecnológicas, sugerindo que os filhos de empresários questionassem seus pais a respeito do assunto, isto é, se eles estavam contribuindo para o desmprego.
Duas críticas construtivas:
Primeiro: é impossível falar de Revolução Industrial sem citar desemprego ou sem criticar grandes empresários da época, e isso não é nenhuma esquerdização, mas uma narração de fatos históricos.
Segundo: já que a Veja é alienada e pensa que vivemos em um mundo cor-de-rosa, gostaria de citar o Iguatemi de Porto Alegre como exeplo de empresa que tira empregos ao adotar tecnologias, como fez há alguns anos em seu estacionamento.

Há outras aberrações na reportagem e, como sempre, a revista voltou a atucanar o finado Guevara. Dessa vez, não o chamou de fedorento como anteriormente, mas chegou ao ponto de afrmar que Che só serviu para enriquecer empresários do ramo da moda com as estampas da foto lendária do revolucionário. Esse absurdo se deu na tentativa de refutar um livro de história que explicava que o argentino poderia ter se dedicado à medicina e ter levado uma vida tanqüila e burguesa, mas, em vez disso, foi lutar pelos fracos e oprimidos (péssimo clichê de expressão, por sinal).Por fim, a Veja completa que o líder teria ajudado muito mais pessoas tornando-se médico e salvando inúmeras vidas com a descoberta de uma vacina (até porque, isso só um médico muito incompetente não faz, basta ver como surgem milhões de novas vacinas por ano).

Ah, lembrei de mais uma: a revista parece indignada com o fato de os professores se identificarem mais com Paulo Freire do que com Einstein. Okay, ñão entendi o porquê. Afinal, é lógico que, como EDUCADORES, terão maior identificação com um EDUCADOR!

E, finalizando a leitura do texto da Veja, pode-se concluir que o feitiço virou contra o feiticeiro: na reportagem, critica-se o fato de os professores estarem esquerdizando os alunos, mas a revista faz o mesmo em sentido contrário com seus leitores, tentando direitizá-los, falando mal de qualquer coisa que pareça um pouco esquerdista e direcionando a opinião desses, como quando compara o ensino do Brasil com o da Finlândia, mostrando duas fotos: do primeiro país, uma sala simples com alunos de ensino fundamental e escola pública (provavelmente); do segundo, um laboratório de química com alunos de ensino médio. Baita trapaceiros!

Aiai, no mínimo, hilário. Confiram!

Thursday, August 21, 2008

Há uma férrea ligação entre cabelo e personalidade.

Conheço uma moça que tem os cabelos mais crespos do mundo (DO MUNDO). Você se pergunta: "Essa espécie ainda existe?" Pois sim, meu bem. Porém, implica conseqüências: aparecimento de unhas enormes e perigosíssimas, dando margem ao afloramento do instinto selvagem, “enroucamento” da voz, o que estimula o desenvolvimento da habilidade de emitir grunhidos...

Agora falando sério (e plageando Chico) : existem sim decorrências da afirmação dos cachos, mas não tão surreais (ou eróticas, como preferir). Digo afirmação, pois existem dois caminhos para as mulheres encaracoladas: alisamento ou enfrentamento. A minha amiga, como já se percebeu, optou pela segunda. Não sei exatamente distingüir causa e conseqüência aqui: ou ela sempre teve uma personalidade forte e, por isso, não se submeteu ao sistema; ou criou toda essa força como armadura no enfrentamento da sociedade teenager. O fato é que ela é uma mulher de gênio.

Aliás, uma mulher de voz, de olhares, de unhas (apesar de não estarem relacionadas ao cabelo) e dentes, de pés, de cabelos. Chega num abiente, todos notam. *Faz coisas nos meus cabelos com as garras que provocam reações e opiniões alheias, no mínimo, hilárias. Pisa com seu andar elegante, mesmo quando veste alstares, sem estar. E me pergunta todo dia: “Meu cabelo tá bom?”. E eu respondo: “Igual ao de sempre”. Se indigna. Mas, o que ela espera, um cabelo que impões presença daquele jeito, com toda sua crespura, não nos deixa parar nos detalhes, fazendo-nos percorrer as ondulações como um todo. (Carol chapada)

Provoca até medo,a ponto de uma das melhores amigas afirmar :"Nunca briguem com ela.". Fica louca quando alguém a desrespeita, crava suas unhas na pele de quem se atrever fazê-lo, e mal consegue falar nas aulas de filosofia, história ou religião, quando algo está em debate (já foi bem mal-interpretada).

E como se não bastasse tod’essa quase macheza (QUASE, antes que me batam), seriedade, pé no chão, me vem falar de camélias rosas, molhadas no chão do colégio, com um encanto quase que sobrenatural, delirante, total 70’s.

Vê se eu posso.



*leia-se cafunés.

PS I: Que fique bem claro que somos apenas boas amigas. Ainda que gostemos de provocar nossos colegas com frases como “Toda mulher tem um lado lésbico”.
PS II: Essa idéia me surgiu ontem mesmo, lembrando da nossa amizade ao longo desses dois últimos anos e do quão doce a moçoila do post ficou de um tempo pra cá. Por que será...?
PSIII: Qualquer erro de português se deve à pressa e ao sono. Perdão.

Wednesday, June 25, 2008

Querelas do Brasil

Desde a edição comemorativa de dez anos da São Paulo Fashion Week, tenho ouvido o debate a respeito do que seria o design brasileiro. Essa polêmica, que a partir daí passou a me atucanar, engloba diversos questionamentos: existe uma identidade brasileira em termos criativos? Se sim, como mantê-la em tempos globalizados? Deve haver uma preocupação em criar produtos com a cara do Brasil?

No entanto, essa discussão não é tão recente assim: sabe-se que desde a Semana de Arte Moderna de 1922 e, mais ainda, nos manifestos que a seguiram (Anta, Pau Brasil, Antropófago...) isso está em pauta. Os modernistas da época tinham então uma enorme preocupação sobre como deveria ser a arte brasileira: uns, mais ufanistas, defendiam o índio tupi-guarani como o herói; outros, menos radicais, defendiam uma deglutição da cultura européia, sendo absurdamente acusados de afrancesados. Essa última idéia, presente na antropofagia de Oswald, dizia que deveríamos absorver a cultura do Velho Mundo e aproveitar aquilo que pudesse ser útil à nossa arte, evacuando o restante. Assim, estaríamos formando a nossa própria identidade artística.

ABAPORU: símbolo da Antropofagia


Esse conceito foi então retomado mais ou menos umas quatro décadas depois, no Tropicalismo, quando passou a misturar-se o rock´n´roll com o samba e outros ritmos daqui. Para mim, todo assunto poderia ter se encerrado por aí, mas, como a arte está em constante mudança e, conseqüentemente sempre sugerindo novas indagações, essa história não parou na época dos Mutantes. Decorreram-se então mais quarenta anos e ainda não sabemos qual é a cara da nossa arte.

Os tropicalistas

Como já disse anteriormente, o design brasileiro está vivendo um dilema. Uns sentem-se na obrigação de fazer trajes com cores vibrantes e cortes sensuais, acreditando estarem representando bem nossa identidade; já outros, estão nem aí pra essa história de design tipicamente brasileiro e vão no trem da globalização, seguindo as tendências européias; por fim , ainda há aqueles que, à exemplo dos modernistas da primeira geração e dos tropicalistas, fazem suas criações aliando o bom daqui ao bom de lá. Exemplos desse último grupo que me agradam imensamente, são os móveis dos Irmãos Campana e as roupas do Alexandre Herchcovitch, ambos coloridos, com aquela cara tropical, mas sem dar a impressão de terem saído da Amazônia (até porque, o Brasil não se restringe a essa região).


ufanismo x globalização




Alexandre: estampas à brasileira em corte à moda européia


Ronaldo Fraga: outro que mistura o conservadorismo estrangeiro com elementos da nossa cultura. No caso da foto, as roupas inspiram-se na poesia de Drummond.



Duas criações de uma das séries de poltronas mais famosas dos Campanas



Mas será que é necessário descobrir qual é o nosso estilo? Será que não estamos perdendo com essa discussão o tempo que poderíamos utilizar para desenvolver produtos incríveis? Para o arquiteto e designer Guto Índio da Costa, todo esse debate é inútil e, de fato, devemos nos focar em fazer bom design:"Just do it", prega Guto, parafraseando o slogan da Nike. Também diz ele que só quando tivermos uma tradição estética, isto é, uma geração de grandes criadores, poderemos analisar o que se faz aqui. Concorda com ele o Prof. Simon Bolton, diretor do MA Innovation Management - Central Saint Martins College, que afirma estarmos tornando uma simples discussão em um bicho de sete cabeças (tanto que não resolvemos isso em quase um século). Além desse aspecto, ele crê que, atualmente, o design brasileiro seja aquele que é bem feito aqui, como as famosas Havaianas.

Moda praia da Rosa Chá: representa o que nos torna mundialmente conhecidos.

Okay, então devemos criar sem pensar. Sei não. Apesar de ser isso que eu faço e, conseqüentemente nunca conseguir responder à típica pergunta "O que tu quiseste dizer com isso?", penso que temos sim que pensar no que criamos(tanto que, não refletindo a respeito do que crio, reflito sobre o que os outros criam - o que é bem mais fácil e prazeroso). No entanto, isso tem que ser necessariamente natural, como explicou-me uma aluna do Instituto de Artes da UFRGS. Logo, não devemos nos forçar a ter um discurso sobre o que estamos criando, mas fazer isso como um impulso natural, o que precisa ser desenvolvido, obviamente.

Outro aspecto que fortifica essa opinião é o de que estamos extremamente sujeitos à influência externa, principalmente devido à nossa falta de auto-estima. Assim, acabamos sempre fazendo as coisas inconscientemente com base no que é feito no exterior e, até mesmo, imitando o povo de lá, por não acreditarmos em nosso talento. Portanto, talvez antes de pensarmos em criar uma arte com a nossa cara, devessemos nos concentrar em criar segurança no que fazemos. Afinal, como cantava Elis Regina na música que dá título a esse texto, "O Brazil não conhece o Brasil".



Juliana Jabour e Stella McCartney: imitação grosseira.

Monday, June 16, 2008

Como provavelmente você também, tenho minhas melhores idéias no banho. Se é a água escorrendo e o efeito de relaxamento que ela produz ou o isolamento do mundo que se tem nesse precioso momento, já não sei dizer. Mas, indubitavelmente, se eu tivesse menos afazeres e (antes que o Al Gore venha me bater) se a situação ecológica do mundo fosse outra, eu iria pro chuveiro pelo menos quatro vezes por dia e lá ficaria durante uns bons vinte minutos.

Dessa vez, além do que eu acabei de relatar, pensei sobre três coisas: sobre a obra da Elida Tessler, tão carinhosamente criticada pelo Milton, e sobre o trabalho do Rodrigo Braga exposto na pinacoteca da UFRGS (que também tem recebido críticas amorosas).

Começando pelo trabalho do Rodrigo:
Acho incrível como a técnica (gestual, né, Luiza?) interfere no nosso ponto de vista a respeito da obra. Em outras palavras, um trabalho pode perder ou ganhar valor de acordo com o modo como foi feito (pelo menos é assim que acabamos julgando as coisas). No trabalho do Rodrigo Braga, a técnica foi determinante na formação da minha opinião.

Pra dar uma esclarecida àqueles que não fazem idéia de que eu esteja falando,a obra, chamada "Fantasia de Compensação", trata-se de fotos que mostram um processo cirúrgico em que cortam-se partes de um cachorro (orelha, focinho, couro, etc)e costuram-se essas no rosto de um homem. Certamente, já dá pra perceber o quão chocante é o trabalho. Ainda assim, pra quem segue a filosofia do "ver para crer" ei-lo aqui:









Pois bem. Como havia dito, antes de ter visto a obra, havia ouvido falar dela. E muito mal - o que eu acho compreensivo. Digo isso, pois quem me contou sobre ela, acreditava ela ter sido feita da maneira que de fato parece ter sido: cortando-se pedaços do cachorro e aplicando-os a um homem. Certamente, ao saber disso,fiquei chocada. Achei a obra um absurdo, chamei o artista de todos os nomes e fiquei tentando buscar uma explicação para alguém transgredir o princípio da vida (por favor, não associem isso a minha opinião sobre abortos). Até porque, independente de quem se é, do que se gosta e se acredita, espera-se que todos, acima de tudo, respeitem a vida por uma questão ética. Afinal, antes a vida, depois a arte.


Seguidos alguns dias da conversa e, já recuperada da minha indignação, vi na Contracapa da ZH uma imagem que eu julgava ser referente a essa obra e, ao lado, um textículo explicando do que se tratava. Para o meu alívio, descobri que era tudo manipulação de imagem. Não resisti e entrei no site do artista para ver a obra completa. Repentinamente, minha opinião havia mudado:passei a achar a criação genial. Poxa, o cara fez uma obra tão bem feita, que fez eu e muitas pessoas acreditarem em um absurdo e, por conseguinte, ficarem perplexas (se não possessas). Talvez, com todos esses sentimentos que a obra nos provoca, Rodrigo estava querendo justamente protestar contra as aberrações que são feitas com animais em experiências científicas,por exemplo.

Mas, voltando à questão do making of da obra, não posso deixar de me perguntar o seguinte: por que a técnica interfere tanto na formulação da nossa opinião a respeito da arte? Será que Maquiavel estava certo quanto aos fins justificarem os meios? Se não justificam (como seria o caso se o Rodrigo houvesse sacrificado um cachorro),com certeza tem direta relação com eles.

Lembro-me de umas pinturas expostas na Casa dos Bancários na época da Bienal B, em que o aumento da minha admiração por elas se deu quando descobri que usava-se sangue para fazê-las. Pois é. Mais uma vez, os meios foram determinantes. E voltamos àquela velha história: não é a obra em si o que de fato importa? Não bastasse a teoria me importunar, agora vem a técnica?

Preciso de um descanso quanto a esse assunto.

Pulemos pra Elida:

A obra dela de que pretendo falar trata-se de um livro, "O Homem Sem Qualidades", cujos adjetivos foram riscados por ela (tendo um deles passado despercebido). Trata-se de um trabalho original e, acima de tudo (mesmo com a pequena falha que citei), minuciosíssimo. No entanto, acredito que nem toda originalidade, nem toda minúcia estão associados a qualidade artística. Fazer algo trabalhoso pode ser tanto encontrar uma agulha num palheiro, quanto pintar um quadro renascentista. Obviamente, entre as duas tarefas, a que agrega maior valor artístico é a pintura. Também seja possível ser original de infinitas formas, mais nem toda originalidade produz em nós algo novo: Duchamp foi extremamente criativo ao assinar um urinol e com esse ato inusitado provocou um questionamento que mudou os rumos da arte.

A questão é: na minha opinião, nem o preciosismo do trabalho da artista, nem seu caráter inventivo me tocaram. Talvez tenham sensibilizado outras pessoas (que essas, se souberem o porquê, se manifestem) e, em função disso, não posso dizer que o trabalho da Elida não seja arte. Quiçá meu senso artístico esteja mesmo atrasado e, conforme disse uma amiga minha,a estudante de artes visuais Luiza Abrantes, "Cada vez mais, principalmente depois do expressionismo abstrato, do minimalismo e do readymade de Duchamp, o literário serve como elemento constitutivo do trabalho. O discurso é cada vez mais necessário, e a Elida trabalha justamente isso, com a palavra. A palavra como matéria artística."

Todavia, mantenho meu ponto de vista. Por enquanto.

Sunday, June 08, 2008

"Sobre a nossa riqueza" ou "Sobre a nossa miséria"

Não que eu esperasse muito desse circo,até porque normalmente não gosto dessas coisas que deixam o povo eufórico. Desde o início achei muito sensacionalismo toda essa propaganda. Ouvia falar em filas quilométicas para se conseguir ingressos e não entendia porquê. Perguntei pra minha mãe e ela disse: "Acho que é porque essas coisas nunca vem pra cá". É,deve ser. No entanto, começou a virar o MUST assistir ao tal circo e, conseqüentemente, todas as pessoas com quem eu falava afirmavam ter ingresso ou estar se esforçando para conseguir.

Um ano depois de minha família ter efetuado a compra do ticket, estávamos lá sentadinhos ná penúltima fileira lateral. O circo começou e uma mulher com uma voz irritante iniciou sua cantoria. Ela cantou durante quase todo espetáculo e acho que deveria falar em uma língua fictícia, poque eu só entendia "ALLEGRÍA, ALLEGRÍA". Tá bom: sou bem chata pra música. Mas se esse fosse o único motivo pelo qual eu não havia gostado do espetáculo, não estaria aqui escrevendo.

Na minha opinião houve principalmente uma falta de investimento em estética: as roupas eram lindas, mas ficavam pouco valorizadas devido à falta de luzes; o cenário, praticamente inexistente. Tudo parecia tão sem vida... Será um excesso de brasileirismo sentir falta de cor? Ou será que eles não sabiam o significado da palavra ALLEGRÍA?

Independendo das respostas, acho que faríamos muito melhor - se tivéssemos dinheiro. E volto a reclamar da falta de investimento em cultura, pois não existe estética mais rica que a nossa e, ainda assim, ela passa despercebioda no mundo devido à indiferneça do governo em relação a ela. Ouvi dizer no Canadá quem sustentou o Cirque de Soleil nos seus primeiros anos foi o governo de lá. Já pensou? Nossa, o que se faria aqui se recebessemos dinheiro para... Chego a achar estúpida a situação.

Lembrei agora da abertura dos Jogos Pan-americanos lá no Rio: foi emocionante. Muita gente saiu criticando o que se gastou para obter tal efeito, mas fui completamente a favor. Tudo bem, existem muitos problemas no Brasil carecendo de atenção financeira; no entanto, não é o investir ou não numa abertura que os solucionará (ixi! tem muita coisa por trás a ser resolvida). Penso que é uma questão de honra ter uma abertura à altura daquela e acredito ser essencial que o mundo saiba da dimensão da nossa arte. Quem sabe, assim ele passe a investir na gente - já que nós mesmos não o fazemos.





A cantora chata do circo.


http://br.youtube.com/watch?v=jK3rnNtP2Nw&feature=related

(pra quem não lembra da abertura)

Friday, May 30, 2008

CONVITE

A Arte Elitista

Sempre achei as artes visuais as mais incompreendidas. Ao contrário do caminho que a música, o cinema e a literatura seguem, as plásticas tornam-se cada vez mais inacessíveis. E o pior de tudo: parecem se orgulhar disso.

Citarei a Bienal, pela vigésima vez: sua última edição conseguiu ser ainda mais complexa que já era, com obras ainda mais minimalistas e que exigiam elevadíssimo nível de raciocínio e cultura do expectador. Devido a isso, foi polêmica: houve aqueles que amaram e aqueles que odiaram. Eu odiei.

Mas, afinal, por que fazer uma exposição que somente um centésimo da população consegue apreciar. Pra que investir milhões nisso? Qual o retorno, quais os benefícios, que mudança fará na sociedade uma mostra tão elitista? Investe-se muito em algo que agrada a pouquíssimos.

A inspiração desse texto veio, para variar, de uma conversa. Durante ela, pasmei: contaram-me que uma professora do Instituto de Artes da UFRGS afirmou a Bienal ser voltada para colecionadores milionários de arte contemporânea. E disse isso com orgulho. Ouquei. Então por que defende-se tanto essa exposição como um tobjeto de prestígio cultural do Mercosul (que nem mais deste pode ser considerada, afinal, globalizou-se completamente)? Por que não se faz um leilão, bem menos divulgado, para essa minoria e não usa-se os principais espaços de exposição da cidade para expôr obras voltadas ao resto da população?

Não acho que seja necessário impedir a arte de seguir em frente e assim, penso que essas manifestações menos digeríveis devem continuar sendo estimuladas para amadurecerem. Porém, para que a população consiga acompanhá-la, deve-se investir em educação artística. Deve-se investir em mostras mais populares, em vez de colocar toda “energia cultural” do estado na Bienal. Talvez se o governo apoiasse a Bienal B, Essa POA é boa, entre outras do gênero, já seria meio caminho andado. Acontece que o Rio Grande do Sul é um dos estados que menos investem em cultura.

Tuesday, April 08, 2008

With a little help from my friends

Estava eu conversando com uma amiga a respeito da influência das drogas na capacidade criativa. Falamos então sobre como sabia-se que, sob o efeito de certas substâncias ilícitas, o inconsciente se apodera do indivíduo e o resultado do que se cria é muito mais original do que seria sem a "mãozinha" da química. Prova disso são os trabalhos de muitos músicos (Beatles e mais um milhão) e artistas plásticos (só mencionei essas duas expressões artísticas, pois meu conhecimento a respeito
disso é ainda mais limitado), como Basquiat.

Veio então à minha cabeça, uma indagação de molho há muito tempo: será que podemos avaliar o talento de um artista através de obras realizadas com a interferência de alucinógenos? Afinal, quem executa a obra nessas circunstâncias, é o subconsciente do artista e não ele, "ao natural", ou seja, lúcido. É incontestável que essa área da nossa mente é parte de nós, bem como o consciente. No entanto, aquele é justamente aquilo em que somos equivalentes , em termos de criatividade (um exemplo disso seriam os sonhos, que repleto de elementos em que nunca pensaríamos quando cônscios). Logo, sob o efeito da maconha, entre outras substâncias ainda mais "poderosas" , somos capazes de descobrir Picassos dentro de nós, tamanho o potencial criativo que suponho desconhecermos (nem todos, é lógico...).

Assim, afirmar que uma obra de arte originada do inconsciente de alguém é incrível, sensacional, mega expressiva, fantástica, poética, intensa, etc, etc, é, segundo Cindi, aceitável. Por outra perspectiva, atribuir a genialidade ao artista que a executou naqueças condições, não me parece justo. Logo, penso que grande mesmo é quem consegue, espontaneamente, digo, lucidamente, transverter o subconsciente para uma obra. Em outras palavras: ser criativo é não precisar daquela "ajudinha" para pôr, sem medo, no papel (ou na mídia que se preferir) o que vier à cabeça.


PS: Eu não odeio os Beatles, nem o Basquiat. Só acho eles meio trapaceiros....

PS II: Utilizei os termos "inconsciente" e "subconsciente" como sinônimos, pois sempre compreendi-os assim. Fui posteriormente pesquisar os significados e não entendi bem do que se tratam. Aceito correções/explicações.

Friday, February 08, 2008

Não sei bem como explicar a sensação borbulhante dentro de mim. Uma vontade enorme de criar, conhecer, aprender, que há muito, por esforços meus, eu não sentia. Isso mesmo, me forcei a não querer tanto, para conseguir descansar, para me permitir viver. Não que eu ache que ter ambições seja algo prejudiocial, só acho que não podemos deixar de viver apenas pensando no que será necessário fazer para concretizar certos planos.

Assim, foi após dois meses de férias antecedidas por um ano cansativo, que encontrei energias para saborear meus pensamentos. Foram muitos desenhos feitos, páginas lidas, e horas dormidas – que há um ano atrás eu não me daria o luxo – para que hoje, chegando em Porto Alegre, me viesse essa vontade tão grande de pôr a mão na massa. E, felizmente, o momento não poderia ser mais adequado: tenho uma semana para organizar meu quarto, arrumar malas e ficar imaginando as maravilhas do Continente Europeu, para onde irei na sexta feira próxima. Logo, daqui pra frente, criar, conhecer e aprender!

Bom, esta foi a minha filosofia de férias.
Por favor, conformem-se.

Espero voltar de viagem com algo mais consistente.