Dessa vez, além do que eu acabei de relatar, pensei sobre três coisas: sobre a obra da Elida Tessler, tão carinhosamente criticada pelo Milton, e sobre o trabalho do Rodrigo Braga exposto na pinacoteca da UFRGS (que também tem recebido críticas amorosas).
Começando pelo trabalho do Rodrigo:
Acho incrível como a técnica (gestual, né, Luiza?) interfere no nosso ponto de vista a respeito da obra. Em outras palavras, um trabalho pode perder ou ganhar valor de acordo com o modo como foi feito (pelo menos é assim que acabamos julgando as coisas). No trabalho do Rodrigo Braga, a técnica foi determinante na formação da minha opinião.
Pra dar uma esclarecida àqueles que não fazem idéia de que eu esteja falando,a obra, chamada "Fantasia de Compensação", trata-se de fotos que mostram um processo cirúrgico em que cortam-se partes de um cachorro (orelha, focinho, couro, etc)e costuram-se essas no rosto de um homem. Certamente, já dá pra perceber o quão chocante é o trabalho. Ainda assim, pra quem segue a filosofia do "ver para crer" ei-lo aqui:


Pois bem. Como havia dito, antes de ter visto a obra, havia ouvido falar dela. E muito mal - o que eu acho compreensivo. Digo isso, pois quem me contou sobre ela, acreditava ela ter sido feita da maneira que de fato parece ter sido: cortando-se pedaços do cachorro e aplicando-os a um homem. Certamente, ao saber disso,fiquei chocada. Achei a obra um absurdo, chamei o artista de todos os nomes e fiquei tentando buscar uma explicação para alguém transgredir o princípio da vida (por favor, não associem isso a minha opinião sobre abortos). Até porque, independente de quem se é, do que se gosta e se acredita, espera-se que todos, acima de tudo, respeitem a vida por uma questão ética. Afinal, antes a vida, depois a arte.
Seguidos alguns dias da conversa e, já recuperada da minha indignação, vi na Contracapa da ZH uma imagem que eu julgava ser referente a essa obra e, ao lado, um textículo explicando do que se tratava. Para o meu alívio, descobri que era tudo manipulação de imagem. Não resisti e entrei no site do artista para ver a obra completa. Repentinamente, minha opinião havia mudado:passei a achar a criação genial. Poxa, o cara fez uma obra tão bem feita, que fez eu e muitas pessoas acreditarem em um absurdo e, por conseguinte, ficarem perplexas (se não possessas). Talvez, com todos esses sentimentos que a obra nos provoca, Rodrigo estava querendo justamente protestar contra as aberrações que são feitas com animais em experiências científicas,por exemplo.
Mas, voltando à questão do making of da obra, não posso deixar de me perguntar o seguinte: por que a técnica interfere tanto na formulação da nossa opinião a respeito da arte? Será que Maquiavel estava certo quanto aos fins justificarem os meios? Se não justificam (como seria o caso se o Rodrigo houvesse sacrificado um cachorro),com certeza tem direta relação com eles.
Lembro-me de umas pinturas expostas na Casa dos Bancários na época da Bienal B, em que o aumento da minha admiração por elas se deu quando descobri que usava-se sangue para fazê-las. Pois é. Mais uma vez, os meios foram determinantes. E voltamos àquela velha história: não é a obra em si o que de fato importa? Não bastasse a teoria me importunar, agora vem a técnica?
Preciso de um descanso quanto a esse assunto.
Pulemos pra Elida:
A obra dela de que pretendo falar trata-se de um livro, "O Homem Sem Qualidades", cujos adjetivos foram riscados por ela (tendo um deles passado despercebido). Trata-se de um trabalho original e, acima de tudo (mesmo com a pequena falha que citei), minuciosíssimo. No entanto, acredito que nem toda originalidade, nem toda minúcia estão associados a qualidade artística. Fazer algo trabalhoso pode ser tanto encontrar uma agulha num palheiro, quanto pintar um quadro renascentista. Obviamente, entre as duas tarefas, a que agrega maior valor artístico é a pintura. Também seja possível ser original de infinitas formas, mais nem toda originalidade produz em nós algo novo: Duchamp foi extremamente criativo ao assinar um urinol e com esse ato inusitado provocou um questionamento que mudou os rumos da arte.
A questão é: na minha opinião, nem o preciosismo do trabalho da artista, nem seu caráter inventivo me tocaram. Talvez tenham sensibilizado outras pessoas (que essas, se souberem o porquê, se manifestem) e, em função disso, não posso dizer que o trabalho da Elida não seja arte. Quiçá meu senso artístico esteja mesmo atrasado e, conforme disse uma amiga minha,a estudante de artes visuais Luiza Abrantes, "Cada vez mais, principalmente depois do expressionismo abstrato, do minimalismo e do readymade de Duchamp, o literário serve como elemento constitutivo do trabalho. O discurso é cada vez mais necessário, e a Elida trabalha justamente isso, com a palavra. A palavra como matéria artística."
Todavia, mantenho meu ponto de vista. Por enquanto.
1 comment:
pois é, não sei realmente o que dizer, então farei um elogio: muito bem escrito minha cara, opinião muito bem fundamentada e bela dialética!
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