Thursday, April 09, 2009

Compreendendo a arte

A arte pode não ser uma ciência (felizmente!), mas não deixa de ser uma forma de conhecimento. Sendo assim, precisa-se de dedicação para se atingir sua essência. Ninguém nasce absorvendo arte, apesar de desenvolver-se, desede muito cedo, um gosto. O problema é que se deve desvincular a arte desse patamar tão subjetivo.

Não pretendo afirmar que a arte deva ser exata e que é vazia de subjetividade: há, sim, em seu campo, muita sensibilidade envolvida. Mas, ao falar em sentir, gostaria aqui de me referir a algo construído a partir de uma bagagem artística. Logo, apesar de podermos simplesmente gostar mais de uma cor do que de outra (gosta-se porque se gosta), não podemos limitar a arte a esse tipo de julgamento. Afirma-se isso, pois não se pode apresentar uma obra de arte contemporânea a um leigo e esperar que ele goste dela.

Tentarei ser mais clara: na avaliação das coisas banais, não há complexidade alguma, por isso pode-se aceitar o "gosto" ou "não gosto", que não são julgamentos complexos. Já naquilo que não é simples, não se pode satisfazer-se com o gostar ou não (gosto é gosto!). E a arte não é nem um pouco simples.

Assm, só compreenderá por que uma vaca morta dentro de um "aquário" é considerada um objeto de arte valiosíssimo, quem tiver o conhecimento da arte e compreender que essa não se limita à fruição espontânea do gostar. Precisa-se ter um olhar acostumado, uma história de freqüentação,leituras fundamentais e constante reflexão.

Um pouco de autobiografia: com 8 anos, meu ídolo era Da Vinci e meu anti-ídolo, Picasso. Pelos nove, dez anos, comecei a me interessar pelos impressionistas e achar os renascentistas desinteressantes. Já pelos doze, minha atenção voltou-se para Picasso (aquele sobre cujos desenhos expostos numa Bienal tive vontade de cuspir) e por ele fui obcecada por um bom tempo. Hoje, próxima dos dezoito, sou fascinada pela arte contemporânea e sua enorme variação de artistas: lúdicos ou agressivos, poéticos ou matemáticos, estáticos ou híbridos.... e poucas coisas me instigam tanto quanto os animais de Damien Hirst ou os monstrengos bizarríssimos de Patricia Piccinini.

Portanto, para entender a complexidade da arte atual, recomendo começar das coisas mais belas e tradicionais, passando por cada vanguarda, até chegar na metade do século XX. Se sobreviver até aí, digo, se estiver convencido de que tudo que se considera arte (pela crítica, pela história)merece essa denominação, já pode-se enfrentar a contemporaneidede. Algumas dicas básicas: arte não serve para decoração - aliás, não serve para nada, sua razão de ser é simplesmente de "arte pela arte" - por isso, esqueçam a interrogação:" Quem vai colocar isso em casa?!" . Segundo: arte não tem de ser necessariamente bela e agradável, desde que provoque alguma comoção na gente, positiva ou negativa. Logo, algo repugnante, revoltante, pode ser extremamente artístico. Por último, o valor da arte não está no trabalho que deu ao artista para executar a obra e sim no quanto essa nos toca. Portanto, se apenas uma linha no vazio me tocar, ela é arte. Além disso, pode parecer estranho, mas, normalmente, as obras mais minimalistas de um artista são as mais maduras, ou seja, para ele chegar nessa síntese extrema, ele teve de fazer coisas visualmente muito mais elaboradas.

Queria deixar claro que nesse texto me referi às artes visuais, mas acredito que também na música, na literatura ou no cinema, a teoria de que precisa-se de um "estudo" da arte, de uma familiarização com ela para poder-se compreendê-la é válida. Um exemplo bobo: quando se trata de Beatles, começa-se ouvindo Please Please Me , para depois se conseguir apreciar um White Album (se minha cultura musical fosse mais significativa daria um exemplo melhor).Da mesma forma, ninguém digere Galuber só tendo assistido a filmes hollywoodianos.

Por último, acho importante dizer que sempre haverá artistas com os quais não nos identificaremos, isto é, cujas obras não nos afetarão, por melhores que sejam. Eu, por exemplo, ao ver um Mondrian, pouco me emociono. Porém, isso não justifica eu desrespeitá-lo, pois tenho noção da relevância de sua obra, mesmo essa tendo pouco significado para mim. Por isso ressaltei no início do post a importância de separar a subjetividade da análise artística (crítica e objetiva).


O "mínimo" de Miró: cheio de expressão e posterior a muitos "exageros"



A fonte de Duchamp: impossível falar-se em ruptura, em um novo conceito de arte, sem passar por ela.





"Mother And Child", as vacas mergulhadas em formol: uma das obras mais caras de todos os tempos. Se alguém comprará para decorar sua casa? Improvável.



"Fantasia de Compensação" : o processo cirúrgico de um homem recebendo órgãos caninos, criação de Rodrigo Braga, do qual já falei aqui em outro post. Outra obra que desconforta, provocando náuseas e revolta.

"We Are Family": as criaturas horrendas de Patrícia Piccinini, provando que nem sempre o belo está presente na arte.

Thursday, March 05, 2009

Picasso: o artista sem estilo



Foto de David Douglas Duncan




Foto de Robert Doisneau






Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de Los Remedios Cipriano de la Santissima Trindad Ruiz y Picasso, nascido em 25 de outubro de 1881, na cidade catalã de Málaga e mais conhecido como Picasso (sobrenome da mãe), sempre gostou de desenhar. Seu pai, pintor medíocre e preofessor, logo viu o talento precoce do menino (Pablito, será?) e decidiu entregar-lhe seus pincéis e encaminhá-lo à Barcelona, onde estudaria arte. De fato, na época – ao contrário do que ocorre hoje -, Barcelona não era lá um grande centro artístico, mas sim o que havia de mias acessível ao jovem arteiro considerando-se localização e condições financeiras.

Tendo seus primeiros quadros vendidos na nova cidade, mudou-sem para Madrid. No entanto, bom mesmo seria ir à Paris, onde a arte realmente acontecia. Então, em 1904, já tendo passado por lá anteriormente, mudou-se definitivamente para a Cidade Luz. Lá conhece não apenas os prostíbulos, como os cafés, e, da mesma forma, tanto as mulheres – e quantas! – como grandes artistas e intelectuais (Apollinaire, Jean Cocteau e Gertrude Stein..).

Apesar dos anos sofridos de miséria em Paris, Picasso foi recompensado, tornando-se, anos depois, milionário. No entanto, só se pode falar em recompensa, considerando-se seu árduo trabalho, sua determinação, ao contrário de alguns de seus contemporâneos que eram antes boêmios que artistas.O próprio artista dizia:“Morrerei de pincel na mão”, e, se não morreu, foi por acaso, já que continuou produzindo até seus últimos dias. Sobre isso, Carlos Heitor Cony, na revista Manchete de abril de 1973, afirma: “Enquanto outros artistas e escritores se devoravam nas fórmulas abstratas da arte e da vida, Picasso ia imprimindo um ritmo vertiginoso à sua produção, abrindo a sua inspiração a todos os caminhos que se cruzavam à sua volta, mas sem esquecer que a arte requer uma disciplina existencial – e a primeira e mais pesada manifestação dessa disciplina era o trabalho.”

Porém, Picasso não somente se diferenciava de seus colegas pela disciplina, mas também por sua inquietude, que o fazia transitar por todos os estilos, concedendo complexidade e inclassificabilidade à sua obra. “ A sua arte atravessaria 80 anos de história da pintura, seria contaminada por todos os movimentos de seu tempo – e a todos poderosamente contaminaria. Do realismo ao surrealismo, do cubismo ao expressionismo, da fase azul à fase rosa, dos retratos às gravuras eróticas, da escultura à cerâmica, da ilustração de livros aos murais, de tudo Picasso provou, mas sempre quis mais.” Certa vez, ao ser perguntado sobre qual dos seu períodos gostava mais, respondeu: do próximo. Pode-se dizer que, se nós o consideramos o pintor de todos os estilos, ele, paradoxalmente, se denominava um pintor sem estilo.

No entanto, há algo que conservou em todas suas fases: a hispanidad. “Sua vontade de ser espanhol só era menor que sua vontade de ser pintor” , afirma Cony. Assim, foi a Paris para evoluir como pintor, mas, mesmo após anos vividos na cidade, nunca naturalizou-se francês, concentrando-se em manter-se espnahol. Como conseqüência, suas obras nunca abandonaram os resquícios espanhóis, apresentando como temática as touradas, as crianças, as fanfarras, e como característica as cores, a luz e a vitalidade do seu país de origem.

Não gastarei meu tempo falando de suas inúmeras mulheres-trocava de mulheres como trocava de pincéis -, apesar de elas terem tido efeito significativo em sua obra ou mesmo sido tema dela (uma de minhas séries favoritas é a dos retratos de Dora Maar) , pois isso é o que as pessoas mais parecem saber sobre Picasso (relacionamentos sempre dão o que falar). Também não falarei de sua relação com Franco e a segunda guerra e, portanto da Guernica, porque isso se aprende no colégio. Fecho esse post com duas citações suas a respeito da arte:

“ Não existe liberdade para ninguém, muito menos para o artista. A obra escraviza.”

“A arte não não é casta. A arte é perigosa. É reveladora. Se é casta ou se não revela, não é arte.”

"O que você acredita que é um artista? Um imbecil que só tem olhos se for pintor, ouvidos se for músico, ou uma lira em todos os andares do coração se for poeta? Muito pelo contrário, ele é ao mesmo tempo um ser estético, constantemente em alerta diante dos dilacerantes, ardentes ou doces acontecimentos do mundo, refletindo-os na forma como realiza sua obra. Como seria possível desinteressar-se dos outros homens? Graças a qual indolência, dissociar-se de uma vida que eles lhe trazem de modo tão abundante? Não, a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo."

"A obra de um artista é uma espécie de diário. Quando o pintor, por ocasião de uma mostra, vê algumas de suas telas antigas novamente, é como se ele estivesse reencontrando filhos pródigos - só que vestidos com túnica de ouro."
"A Arte não é a verdade. A Arte é uma mentira que nos ensina a compreender a verdade".

"O artista é como um receptáculo de sentimentos que vêm de toda a parte:do céu, da terra, de um pedaçõ de papel, de uma figura que passa, ou de uma teia de aranha"



A pomba, um dos símbolos do artista, em versão minimalista

O minotauro, motivo muito freqüente





Retrato de Françoise Gilot




Guernica, a obra prima



A face escultora




"La joie de vivre"






A fase clássica







Obra inaugural do cubismo








"As banhistas"









Fase rosa









Fase azul




Um Picasso impressionista




Wednesday, February 11, 2009

No meio do caminho - Ensaio sobre Benjamin Button

Acabo de chegar em casa do cinema. Assisti ao tão comentado "O Curioso Caso de Benjamin Button". Mesmo tendo ido com altas expectativas do filme, não houve frustrações e sim surpresas. A principal delas foi a maneira com que o filme me tocou. Não sou de chorar em filme, mas esse me obrigou a fazer um esforço enorme para conter as lágrimas ao término da sessão, quando quis esconder a maquiagem borrada do resto da platéia.

Também não sou dessas pessoas que se deixam levar pelas emoções e colocam o que tiver para fora, independente das circunstâncias, por mais inadequado que isso seja vindo de uma artista plástica. Dificilmente me sensibilizo com algo a ponto de imediatamente após ter tido contato com o mesmo - seja um acontecimento ou uma obra de arte - ir correndo desabafar, ou seja, expressar-me, ainda mais quando passa da meia noite. Fosse qualquer outro filme, peça, show ou exposição, já estaria no conforto do meu travesseiro, na segurança da minha rotina. Dessa vez não me contive, ignorei o relógio e decidi externar o que o filme produziu em mim.


......

Ao sair da sala de exibição, tudo que eu olhava parecia mais carregado de vida, lembranças, significados. Pessoas ao meu redor davam-me a impressão de estarem sendo levadas para um caminho do qual não escapariam:(nascer) crescer, envelhecer, morrer. Cada objeto me lembrava uma fase da minha vida e me fazia pensar em como tudo passou, como tudo escapou. Como nada pude, nem poderei controlar. Fraldas brotavam no meu campo de visão como para me lembrar de que eu já as usara e de que um dia as colocaria em alguém saído(a) de mim.




Enfim, a marcha inexorável dos anos, muito bem retratada no filme. Uma pessoa que nasce idosa -um bebê com rugas -, vive uma infãncia geriátrica - por sua aparência e pelas pessoas que o circundam numa espécie de asilo - em que conhece uma menina aproximadamente da sua idade, mas obviamente com aspecto infantil, chamada Daisy; e vai rejuvenescendo, à medida que muitos à sua volta vão envelhecendo e outros partindo (o que vai comovendo-nos conforme se dá o enredo). Seja Benjamin, o protagonista de crescimento invertido, seja o resto dos personagens , que representariam a população "normal", todos sofrem a ação do tempo e nada podem fazer para controlá-la. Exemplo disso é quando, já na reta final da história, Benjamin Button, fisicamente uma criança, é entregue aos cuidados de uma idosa chamada Daisy, a mesma com quem tivera um romance na época em que ambos se encontravam na metade do caminho.




Nessa metade é que parece se dar a lucidez dos personagens, de que nada seria pra sempre, de que cada um sofreria os efeitos da passagem dos anos e de que teriam de aceitá-los. Como dizia um professor que tive, é por volta dos quarenta anos, da metade da nossa vida, da metade do caminho, que nos deperamos com a pedra, metáfora da morte utilizada por Drummond ("No meio do caminho tinha uma pedra...."). Eu posso não ter tido ainda meu momento de esclarecimento da morte do alto (baixo seria mais adequado) dos meus dezessete anos, mas, com certeza, esse filme mecheu comigo nesse ponto, na idéia de finitude, na percepção de que pode-se passar a vida toda lutando contra o destino, mas na última hora é deixar-se levar, como foi repetido em frase semelhante no filme. Contudo, se estamos todos marchando para "lá"- seja onde for - talvez fosse melhor adotarmos essa política de permissividade durante toda nossa existência, e não só no último momento....

É provável que eu tenha sido influenciada por essa citação que se repetiu no filme, que não lembro exatamente o que dizia, mas terminava com "let go", que eu substituiria por "deixar-se levar". Deixar-se levar - pela vida, pela emoção - algo difícil, mas que estou exercitando nesse exato instante ao invés de seguir o script da minha rotina regida por despertadores, alarmes, lembretes de "dos and don´ts" e ignorar minha sensibilidade.


Benjamin e Daisy no início e na metade do caminho

Tuesday, September 30, 2008

Carta ao professor / Em prol de Caetano

Caríssimo professor João Armando Nicotti:

Sei que a chance de leres isso é a mais ínfima. Contudo, minha profunda decepção em relação a ti não me permite prmanecer calada. Venho aqui a falar sobre a tua lamentável comparação entre Chico Buarque de Holanda e Caetando Veloso, repleta de sarcasmo (como de hábito) e deboche.

Primeiramente, admito a grandiosidade do Chico. Sua capacidade literária é incontestável, como se vê em letras como “Cálice”, “Joanna Francesa”, “Ana de Amsterdam”, “Construção”, “Roda-viva”, “Até o Fim” e infinitas outras. Mas é exatamente esse o ponto: como é possível alguém indignar-se diante do fato de que Chico não é chamado para cantar na tevê, se ele é um grande compositor, mas não cantor? Até canta, mas convenhamos que não é o forte dele. Eu, por exemplo, tenho uma preferência enorme por suas músicas interpretadas por cantores como Nara Leão, Elis Regina, Ney Matogrosso ou Mônica Salmaso. Por isso, querido professor de literatura, compreendo que prefiras ele em relação a Caetano, afinal, sua poesia é, normalmente, superior (o advérbio é empregado, pois Caê também tem letras fantásticas). Não achas óbvio que tenham preferência para chamar um bom cantor na hora de interpretar Tom Jobim na homenagem à bossa nova? Se quisessem que fosse criada uma canção homenageando-o, tudo bem, chamem Chico. Porém, não para cantar, por favor.

Além de ter criticado a escolha de Caetano para fazer parzinho com Roberto Carlos, o Senhor Professor criticou a popularidade do primeiro, afirmando esse ser um cantor global. Pergunta: o fato de alguém ter suas músicas em trilhas sonoras da globo ou aparecer cantando nessa emissora tira sua qualidade musical? Creio que não. Até porque, gênios da música como Tom Jobim freqüentemennte tem suas canções como aberturas de telenovelas e não por isso eles perdem sua excelência. Pra ser bem sincera, acho isso RECALQUE.

Mas se o grande *Ruski, não tolera a arte facilmente digerível, posso indicar alguns discos menos comerciais do caetano. Que tal Araçá Azul? Na minha opinião, suas músicas exigem mais do ouvinte que qualquer uma do Chico Buarque que eu conheça.

O problema é que as pessoas tem uma dificuldade imensa em compreender a capacidade de auto-reciclagem de artistas como esse baiano. Preferem o que é constante, como o carioca filho de Sérgio Buarque de Holanda. Não encaram bem as milhares de fases por que Caetano passou, sempre absorvendo como uma esponja diversas culturas, sempre se renovando, sempre surpreendendo, com suas múltiplas facetas. Caetano nunca é igual. Caetano é artista.

Já Chico, esse não é muito ligado às surpresas, no sentido de se renovar. Ele surpreende-nos, sim, com sua genialidade, com suas rimas e com sua capacidade de colocar letra em qualquer composição que lhe entreguem (desde que essa seja de bom nível). Contudo, não transita muito pelos gêneros musicais. Não é adepto às guitarras. Não mistura ritmos. Não é amigo do experimentalismo. Chico segue em linha reta. Chico é poeta.

Por isso entendo que alguns prefiram-no. No entanto, acho que, por uma questão de respeito, não se deve debochar de um gigante, ainda que se tenha predileção por outro. Não se pode falar do inventor (juntamente com Gilberto Gil) do Tropiocalismo, como se ele não tivesse um passado tão fabuloso. Como se ele não tivesse revolucionado a música brasileira. Como se ele não tivesse enxergado muito antes o que ninguém via, valorizasse nossa cultura e a mesclasse com estrangeirismos com tamanha genialidade, a qual o povo só foi reconhecer tempos depois de sua consagração (sem falar nos que ainda não reconheceram...).

Também achei de uma ignorância meu professor ter mencionado a crítica política de Chico Buarque defendendo sua superioridade em relaação a Caetano nesse aspecto. Sim, Chico escreveu “Cálice”, cantou “Cale-se”. Mas reconheça, por favor, que Caetano não foi nenhum alienado nesse período. Pelo contrário, foi preso, exilado! Pode não ter composto muitas músicas voltadas para o debate político, mas suas atitudes e suas palavras fora do palco devem ser lembradas como atos de descontentamento e rebeldia. Além do mais, rebelar-se contra a ditadura não significa apenas compôr contra essa, mas também criar uma sonoridade livre, demonstrando-se, por conseguinte, contra qualquer tipo de conservadorismo vigente.**

Por último, o argumento mais lamentável utilizado pelo professor João Armando Nicotti foi sua crítica às preferências sexuais do meu amado cantor: disse que respeitava sua bissexualidade (acho que ele falou HOMO, o que é mais uma mentira), mas não compreendia sua atração por ACM e , portanto, não poderia levá-lo a sério. Ouquei, sôr, se é por isso, afirmo: até entendo que Chico aprecie futebol, mas... ser tricolor? Isso não....!
*Ruski, de russo: é um dos apelidos do professor, devido a seu gosto pela literatura russa.
(uma prova da "falta de engajamento" político do meu baiano...)





Sunday, September 07, 2008

Paródias

1)Manuel Bandeira x Júpiter Maçã






Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei



Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive



E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada



Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar



E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

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Um lugar do caralho


Eu preciso encontrar
Um lugar legal pra mim dançar
E me descabelar
Tem que ter um som legal
Tem que ter gente legal
E ter, cerveja barata
Um lugar onde as pessoas sejam mesmo afudê
Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho


Sozinho pelas ruas de São Paulo eu quero achar alguém pra mim
Um alguém tipo assim:
Que goste de beber e falar,Lsd queira tomar e curta
Syd Barrett e os Beatles
Um lugar e um alguém que tornarão-me mais feliz
Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho
Um lugar do caralho



2) Gonçalves Dias x Gilberto Gil






Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.


Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

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Back in Bahia
Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui
Vez em quando, quando me sentia longe, dava por mim
Puxando o cabelo nervoso, querendo ouvir Celly Campelo pra não cair


Naquela fossa em que vi um camarada
Meu de Portobello cair
Naquela falta de juízo que eu não
Tinha nem uma razão pra curtir
Naquela ausência de calor, de cor, de sal,
De sol, de coração pra sentir
Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim
Digo num baú de prata porque prata é a luz do luar
Do luar que tanta falta me fazia junto do mar
Mar da Bahia cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar
Tão diferente do verde também tão lindo dos gramados campos de lá
Ilha do Norte onde não sei se por sorte ou por castigo dei deparar
Por algum tempo que afinal passou depressa, como tudo tem de passar
Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá




Monday, September 01, 2008

A imprensa anda cada dia mais "divertida"...

1. Por que a imprensa odeia tanto o Caetano?! Só pode ser dor de cotovelo... O cara respira e já arranjam uma implicância nova. Parece até que estamos de volta aos anos 60-70, quando achavam que tudo que ele dizia ou fazia era subversivo, contra o país... Prmeiro passam a julgar ele por um momento de fraqueza que ele teve ao se irritar com aincompetância da Emetevê em um show. Depois, distorcem completamente o que o homem disse quanto aos candidatos à presidência doe Estados Unidos, levando a afirmação "Prefiro preto à mulher" pro lado sexual, quando tratava-se de um comentário em relação ao modo de governar de cada um (posteriormente ele modificou a frase:“Talvez eu tenha dito que prefiro à causa dos negros à causa das mulheres”). E agora, deram pra falar mal do show dele com o Roberto. Ok, criticar arte também faço, mas que critiquem direito!

Para mais informações, o blog do mestre:
www.obraemprogresso.com.br



2.Estou seriamente pensando em assinar a Veja. Assim, quando estiver querendo me divertir, tenho algo pra ler... Para quem está atrás de diversão, recomendo a Veja da semana retrasada, entitulada "O inssino no Brasiu è otimo". Abrindo a revista, espera-se uma crítica à qualidade do ensino brasileiro em termos de formação de lógica e, principalmente de expressão escrita. No entanto, a reportagem surpreende, criticando a falta de formação dos professores, principalmente os de esquerda(ou não de extrema direita) e a "doutrinação" que estes fazem com os alunos (em momento algum se fala que os estudantes mal sabem escrever, como sugere a capa). A palavra aparece entre aspas, pois a revista passa a considerar a equação formar=doutrinar, alegando que todos os educadores que acreditam ser mais importante formar cidadãos a simplesmente ensinar a matéria, serem doutrinadores (pelamordedeus!!!!).
A reportagem possui uma série de equívocos,como quando afirma que atualmente as máquinas não tiram mais empregos e que dizer que o fazem é não capacitar os alunos para o mundo em que vivemos, em que a tecnologia é reponsável por muitos empregos(a matéria coloca, inclusive, que no século dezenove a industrialização foi responsável por tirar nove em cada dez pessoas da pobreza). Ela faz isso no intuito de criticar um professor anchietano que, ao ensinar Revolução Industrial , explicou que o desemprego até hoje pode ser causado por melhorias tecnológicas, sugerindo que os filhos de empresários questionassem seus pais a respeito do assunto, isto é, se eles estavam contribuindo para o desmprego.
Duas críticas construtivas:
Primeiro: é impossível falar de Revolução Industrial sem citar desemprego ou sem criticar grandes empresários da época, e isso não é nenhuma esquerdização, mas uma narração de fatos históricos.
Segundo: já que a Veja é alienada e pensa que vivemos em um mundo cor-de-rosa, gostaria de citar o Iguatemi de Porto Alegre como exeplo de empresa que tira empregos ao adotar tecnologias, como fez há alguns anos em seu estacionamento.

Há outras aberrações na reportagem e, como sempre, a revista voltou a atucanar o finado Guevara. Dessa vez, não o chamou de fedorento como anteriormente, mas chegou ao ponto de afrmar que Che só serviu para enriquecer empresários do ramo da moda com as estampas da foto lendária do revolucionário. Esse absurdo se deu na tentativa de refutar um livro de história que explicava que o argentino poderia ter se dedicado à medicina e ter levado uma vida tanqüila e burguesa, mas, em vez disso, foi lutar pelos fracos e oprimidos (péssimo clichê de expressão, por sinal).Por fim, a Veja completa que o líder teria ajudado muito mais pessoas tornando-se médico e salvando inúmeras vidas com a descoberta de uma vacina (até porque, isso só um médico muito incompetente não faz, basta ver como surgem milhões de novas vacinas por ano).

Ah, lembrei de mais uma: a revista parece indignada com o fato de os professores se identificarem mais com Paulo Freire do que com Einstein. Okay, ñão entendi o porquê. Afinal, é lógico que, como EDUCADORES, terão maior identificação com um EDUCADOR!

E, finalizando a leitura do texto da Veja, pode-se concluir que o feitiço virou contra o feiticeiro: na reportagem, critica-se o fato de os professores estarem esquerdizando os alunos, mas a revista faz o mesmo em sentido contrário com seus leitores, tentando direitizá-los, falando mal de qualquer coisa que pareça um pouco esquerdista e direcionando a opinião desses, como quando compara o ensino do Brasil com o da Finlândia, mostrando duas fotos: do primeiro país, uma sala simples com alunos de ensino fundamental e escola pública (provavelmente); do segundo, um laboratório de química com alunos de ensino médio. Baita trapaceiros!

Aiai, no mínimo, hilário. Confiram!

Thursday, August 21, 2008

Há uma férrea ligação entre cabelo e personalidade.

Conheço uma moça que tem os cabelos mais crespos do mundo (DO MUNDO). Você se pergunta: "Essa espécie ainda existe?" Pois sim, meu bem. Porém, implica conseqüências: aparecimento de unhas enormes e perigosíssimas, dando margem ao afloramento do instinto selvagem, “enroucamento” da voz, o que estimula o desenvolvimento da habilidade de emitir grunhidos...

Agora falando sério (e plageando Chico) : existem sim decorrências da afirmação dos cachos, mas não tão surreais (ou eróticas, como preferir). Digo afirmação, pois existem dois caminhos para as mulheres encaracoladas: alisamento ou enfrentamento. A minha amiga, como já se percebeu, optou pela segunda. Não sei exatamente distingüir causa e conseqüência aqui: ou ela sempre teve uma personalidade forte e, por isso, não se submeteu ao sistema; ou criou toda essa força como armadura no enfrentamento da sociedade teenager. O fato é que ela é uma mulher de gênio.

Aliás, uma mulher de voz, de olhares, de unhas (apesar de não estarem relacionadas ao cabelo) e dentes, de pés, de cabelos. Chega num abiente, todos notam. *Faz coisas nos meus cabelos com as garras que provocam reações e opiniões alheias, no mínimo, hilárias. Pisa com seu andar elegante, mesmo quando veste alstares, sem estar. E me pergunta todo dia: “Meu cabelo tá bom?”. E eu respondo: “Igual ao de sempre”. Se indigna. Mas, o que ela espera, um cabelo que impões presença daquele jeito, com toda sua crespura, não nos deixa parar nos detalhes, fazendo-nos percorrer as ondulações como um todo. (Carol chapada)

Provoca até medo,a ponto de uma das melhores amigas afirmar :"Nunca briguem com ela.". Fica louca quando alguém a desrespeita, crava suas unhas na pele de quem se atrever fazê-lo, e mal consegue falar nas aulas de filosofia, história ou religião, quando algo está em debate (já foi bem mal-interpretada).

E como se não bastasse tod’essa quase macheza (QUASE, antes que me batam), seriedade, pé no chão, me vem falar de camélias rosas, molhadas no chão do colégio, com um encanto quase que sobrenatural, delirante, total 70’s.

Vê se eu posso.



*leia-se cafunés.

PS I: Que fique bem claro que somos apenas boas amigas. Ainda que gostemos de provocar nossos colegas com frases como “Toda mulher tem um lado lésbico”.
PS II: Essa idéia me surgiu ontem mesmo, lembrando da nossa amizade ao longo desses dois últimos anos e do quão doce a moçoila do post ficou de um tempo pra cá. Por que será...?
PSIII: Qualquer erro de português se deve à pressa e ao sono. Perdão.