Durante praticamente um ano, estive ingenuamente satisfeita, acreditando ter finalmente encontrado a minha solução para o problema arte contemporânea. Mas, como todos sabem (menos eu, que frustração após frustração, "re-emburreço"), a felicidade dura pouco. Pois é, e lá está a Cindi,novamente, quebrando a cabeça para tentar definir sua opinião.
Lembram da minha definição de arte? Provavelmente não, porque nem todo mundo tem saco para ler meus posts giganetescos. Portanto, para os preguiçosos ou atrasados, é a seguinte: “Arte é tudo aquilo que o homem cria, capaz de tocar alguém de maneira significativa”. Pois bem, fui eu então visitar a mostra da Bienal do Mercosul que se encontra no Santander Cultural, baseando-me nesse conceito. Durante a visita, começou a crescer uma certa indignação em mim, afinal, nada daquilo me tocava de maneira alguma. As únicas pessoas que pareciam tocadas pela obra eram aquelas que compreendiam as "charadas" propostas pelo artista. Será que eu era muito burra para a arte de Jorge Macchi? Se meu pensamento desesperado estivesse correto,provavelmente minha carreira como artista plástica estaria arruinada, já que eu não me entusiasmava com a obra cuidadosamente escolhida (suponho) pelo tal-tal curador da Bienal do Mercosul.
Saindo da mostra, com a cabeça pegando fogo como costuma ocorrer comigo após degustar exposições, uma conclusão tomou forma: se aquelas obras só emocionavam à minoria que captava a lógica, não tão acessível, da proposta do artista, a exposição seria considerada arte para pouquíssimos. Conseqüentemente, não me surpreenderia se essa Bienal,ainda mais que as anteriores,acabasse causando uma mistura de indignação e desinteresse por arte no povo.
Alguns dias depois, conversei com o curador do espaço cultural da Casa dos bancarios,Cláudio Santana, e, para a minha felicidade, ele, uma pessoa envolvida no meio artístico (participou na organização e planejamento da Bienal B) e pela qual eu tenho grande respeito, concordou comigo em vários aspectos. Falamos sobre aquela história da literalização da arte, que está na minha cabeça desde que li "A Palavra Pintada", de Tom Wolfe, e ele disse algo que resumiu tudo que eu pensava: *"Se qualquer objeto passa a ser arte a partir do momento que se cria um discurso com um novo ponto de vista a respeito daquele, tudo passa a ser arte. Afinal, pode-se inventar uma história sobre qualquer coisa." E a partir dessa conversa, assumi a coragem para manifestar minha opinião de que a **Bienal estava, para meus parâmetros bienalísticos, uma PORCARIA.
A vítima seguinte da discussão foi minha "ídola" e professora de artes, Nerê Preto. Para minha surpresa, a pessoa que me presentou com o livro que originou toda minha indignação com a arte contemporânea discordava de mim. Disse ela: "Tive a mesma sensação que tiveste ao visitar a exposição sem mediação. Na segunda visita, fui guiada e passei a ver tudo sob outra perspectiva, tendo entendido melhor a proposta do artista." Respondi então que a verdadeira arte deve nos tocar de imediato, ou melhor, sem que necessitemos de um manual de instruções; até porque, como prega Tom Wolfe, o texto pode acompanhar a obra e até mesmo valorizá-la, desde que ela não seja dependente desse, como parece-me ocorrer no trabalho de Machi. Foi então que a mestra retorquiu:"Devemos estar abertos para novas propostas.".
Pausa: Será que eu virara uma careta, ultrapassada, daquelas que só falta dizer: "isso até eu faço"?! Comecei a atucanar-me. Mas fiz o possível para manter-me firme com o que acreditava, até que um dia acabei voltando ao Santander.
Dessa vez, estava acompanhada de três pessoas que pareciam discordar de mim. Como já era a segunda vez que visitava a mostra, decidi prestar atenção nas explicações da mediadora solicitada pelo grupo. De fato, a idéia por trás dos trabalhos era bem interessante, tratando de coexistências opostas, do acaso, do lugar, entre outros assuntos. No entanto, nas discussões a respeito da obra, acabei expondo minha opinião. O resultado era: três contra um. A maioria defendia que, sim, qualquer objeto pode ganhar caráter de arte a medida que colocado em um contexto que resulte nessa elevação, como acompanhado de um significado atribuído pelo artista. Respondi então que, se o significado é mais importante que o objeto em questão, está se fazendo literatura e não artes plásticas, afinal, a originalidade está no texto.
De novo me vi cercada: "E porque não utilizar-se da palavra, se essa também pode ser arte? Cinema, música, literatura, etc, são todos arte." Estaria sendo demasiadamente fechada?
Minhas fraquezas e preconceitos foram exteriorizando-se e eu ia reconhecendo-os. Infelizmente, eu também fazia parte do clube dos maníacos por rótulos, que insistem em separar tudo grudando etiquetinhas. E mais: estava presa ao imediatismo de que eu sempre me julguei livre. Afirmo isso pois, ao contrário do que pensava, talvez não seja necessário um manual para interpretar coisas aparentemente non-sense, mas apenas um pouco de paciência. Faltava-me a consciência de que tratando-se da compreensão de uma obra de arte, não tem-se um google search que nos forneça explicações em segundos, de mãos beijadas, mas sim nossa capacidade de dialogar com a arte.
Portanto, a partir de agora, não entrarei em uma exposição de arte contemporânea com a expectativa de ter sensações instantâneas no contato com cada obra, pois aprendi (credo, nesse disurso eu me puxei) que, no meio dessa correria em que vivemos, deveríamos parar um pouco e dedicarmos mais nossa vida à contemplação da arte. E não venha com essa história de que não há tempo sobrando, pois a única reclamação que aceito é a respeito da carência de bancos nas salas dos museus - mas isso é assunto para outro post...
*deixo claro que as palavras dele não foram exatamente essas
Textos cansativos de uma artista em formação metida a crítica de tudo. Provavelmente não serão do seu interesse.
Monday, October 29, 2007
Wednesday, October 10, 2007
A seguir, uma reportagem que fiz, há alguns meses, para o que desejava que se tornasse, algum dia, um jornal do colégio escrito por seus alunos:
Anchietanos convivendo com arte
Renata Almeida, Paula Tombini e Bruna Portugal são alunas da terceira série do colégio Anchieta e encontram-se semanalmente, às quartas feiras, em uma escola de artes, o atelier Lola Ufus. Bruna, que aguarda ansiosamente durante a semana para ir ao atelier e tem como castigo, quando não se comporta, ter de ficar em casa no dia da aula de artes; foi a primeira das três amigas que ingressou no lugar, e aos poucos, incentivadas pela empolgação da colega, Paula e Renata iniciaram-se nas aulas de artes extraclasse.
Quando freqüentam o atelier, uma das opções de trabalho preferidas pelas meninas da turma das quartas feiras é fazer casinhas de madeira e sucata. Porém, devido à abundância e diversidade de materiais que encontram no Lola – nome utilizado por muitos alunos para referirem-se ao lugar onde estudam artes – e à liberdade de criação que lá encontram, os pequenos artistas variam em seus projetos, passando também pela pintura, pela colagem, pela técnica papier maché, entre outras.
Uma opção que os alunos têm, quando não estão inspirados a criar algo novo, é “adotar” outro trabalho. A adoção consiste em resgatar uma obra de arte abandonada por outra pessoa e finalizá-la, transformando-a no que agradar ao novo responsável. Assim, as crianças aprendem a aporveitar todas as possibilidades de um material e percebem que “nada se perde, tudo se transforma”.
Outro aspecto que agrada muito à turma em sua aula de artes, além da oportunidade de criar livremente e experimentar novos materiais, é o fato de poder trabalhar em grupo. Assim, o grupo coopera junto trocando idéias e executando-as com o auxílio das professoras Isabel e Nere Preto. Na opinião de Nere, esse tipo de trabalho gera grande entusiasmo entre as meninas, fazendo com que sintam-se corajosas para pôr em prática suas idéias.
Da turma dos mais velhos, participa Paula Portugal, também aluna do Anchieta, na oitava série. Irmã de Bruna, Paula freqüenta o atelier nas segundas feiras e recentemente trabalhou com pintura acrílica em tela, mas já experimentou diversas técnicas. Outra anchietana entre os mais velhos do atelier é Teresa Azevedo, que também está na oitava série. Teresa já faz aulas no Lola Ufus há cinco anos, participa da turma de sexta feira e tem inspirado-se em olhos para desenvolver desenhos, colagens e trabalhar em papier maché. Segundo à artista, duas grandes vantagens da maneira em que se dá o processo de criação no atelier é que permite-se o trabalho em grupo e tem-se liberdade para escolher um tema próprio, trabalhando no ritmo em que se adequar melhor.
A maior parte das alunas, tanto entre a turma dos pequenos (quarta feira) quanto as de segunda e sexta feira, gostaria de ter mais períodos da disciplina de artes no colégio. Isabel Preto, artista plástica e professora no Lola Ufus, mãe de Ramiro Preto de Oliveira, que está na segunda série do colégio Anchieta; afirma ter achado muito interessante os trabalhos desenvolvidos na escola do filho sobre os artistas Frans Krajcberg, Tarsila do Amaral e Joan Miró. Ainda assim, pensa que seria muito benéfico às crianças se tivessem em artes, assim como na disciplina de música, um professor especializado no assunto. Por outro lado, Nere Preto, também professora no atelier, adimite o ensino de artes nas escolas ser, de certa forma, complicado, já que tem-se de avaliar o trabalho de cada aluno, estabelecendo critérios em um contexto muito pouco exato: “As vezes, nos deparamos com trabalhos muito bons, mas fora do proposto e outros que estão de acordo com a proposta, mas pouco nos sensibilizam. Esse é o tipo de situação que torna dificultoso o processo de avaliação de cada aluno no ensino artístico.”.
Atelier Lola Ufus - Tel: (51) 3388-5391 - Av Caçapava, 174 - CEP 90460-130 Petrópolis - Porto Alegre – RS.
Comunidade do Lola Ufus no orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=102566
Anchietanos convivendo com arte
Renata Almeida, Paula Tombini e Bruna Portugal são alunas da terceira série do colégio Anchieta e encontram-se semanalmente, às quartas feiras, em uma escola de artes, o atelier Lola Ufus. Bruna, que aguarda ansiosamente durante a semana para ir ao atelier e tem como castigo, quando não se comporta, ter de ficar em casa no dia da aula de artes; foi a primeira das três amigas que ingressou no lugar, e aos poucos, incentivadas pela empolgação da colega, Paula e Renata iniciaram-se nas aulas de artes extraclasse.
Quando freqüentam o atelier, uma das opções de trabalho preferidas pelas meninas da turma das quartas feiras é fazer casinhas de madeira e sucata. Porém, devido à abundância e diversidade de materiais que encontram no Lola – nome utilizado por muitos alunos para referirem-se ao lugar onde estudam artes – e à liberdade de criação que lá encontram, os pequenos artistas variam em seus projetos, passando também pela pintura, pela colagem, pela técnica papier maché, entre outras.
Uma opção que os alunos têm, quando não estão inspirados a criar algo novo, é “adotar” outro trabalho. A adoção consiste em resgatar uma obra de arte abandonada por outra pessoa e finalizá-la, transformando-a no que agradar ao novo responsável. Assim, as crianças aprendem a aporveitar todas as possibilidades de um material e percebem que “nada se perde, tudo se transforma”.
Outro aspecto que agrada muito à turma em sua aula de artes, além da oportunidade de criar livremente e experimentar novos materiais, é o fato de poder trabalhar em grupo. Assim, o grupo coopera junto trocando idéias e executando-as com o auxílio das professoras Isabel e Nere Preto. Na opinião de Nere, esse tipo de trabalho gera grande entusiasmo entre as meninas, fazendo com que sintam-se corajosas para pôr em prática suas idéias.
Da turma dos mais velhos, participa Paula Portugal, também aluna do Anchieta, na oitava série. Irmã de Bruna, Paula freqüenta o atelier nas segundas feiras e recentemente trabalhou com pintura acrílica em tela, mas já experimentou diversas técnicas. Outra anchietana entre os mais velhos do atelier é Teresa Azevedo, que também está na oitava série. Teresa já faz aulas no Lola Ufus há cinco anos, participa da turma de sexta feira e tem inspirado-se em olhos para desenvolver desenhos, colagens e trabalhar em papier maché. Segundo à artista, duas grandes vantagens da maneira em que se dá o processo de criação no atelier é que permite-se o trabalho em grupo e tem-se liberdade para escolher um tema próprio, trabalhando no ritmo em que se adequar melhor.
A maior parte das alunas, tanto entre a turma dos pequenos (quarta feira) quanto as de segunda e sexta feira, gostaria de ter mais períodos da disciplina de artes no colégio. Isabel Preto, artista plástica e professora no Lola Ufus, mãe de Ramiro Preto de Oliveira, que está na segunda série do colégio Anchieta; afirma ter achado muito interessante os trabalhos desenvolvidos na escola do filho sobre os artistas Frans Krajcberg, Tarsila do Amaral e Joan Miró. Ainda assim, pensa que seria muito benéfico às crianças se tivessem em artes, assim como na disciplina de música, um professor especializado no assunto. Por outro lado, Nere Preto, também professora no atelier, adimite o ensino de artes nas escolas ser, de certa forma, complicado, já que tem-se de avaliar o trabalho de cada aluno, estabelecendo critérios em um contexto muito pouco exato: “As vezes, nos deparamos com trabalhos muito bons, mas fora do proposto e outros que estão de acordo com a proposta, mas pouco nos sensibilizam. Esse é o tipo de situação que torna dificultoso o processo de avaliação de cada aluno no ensino artístico.”.
Atelier Lola Ufus - Tel: (51) 3388-5391 - Av Caçapava, 174 - CEP 90460-130 Petrópolis - Porto Alegre – RS.
Comunidade do Lola Ufus no orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=102566
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