Saturday, December 05, 2009

A teoria da conspiração de Voltaire Schilling e outras pérolas

No caderno Cultura da ZH de hoje, Eduardo Veras e Luiz Antônio Araújo colocam o "intelectual" Voltaire Schilling na parede, fazendo perguntas relativas à grande polêmica que o historiador gerou ao escrever sobre as esculturas de Porto Alegre. Achei a entrevista excelente, pois escancarou as fraquezas desse, mostrando sua ignorância em relação à arte através de seus argumentos confusos. Transcreverei aqui algumas pérolas do homem, comentando-as:

(Perguntado o que achou da exposição do MARGS na Bienal)
"Olha, achei que tem trabalhos escolares, né? Tem coisas assim de trabalho de ginasiano, colagenzinha de ginasiano, né?"
Dizer que os trabalhos do MARGS são escolares é o tipo de coisa que os leigos diriam e está no mesmo nível do famoso comentário: "isso até uma criança faz".

"Nunca, nunca nenhuma pessoa demonstrou na minha frente, para amigos meus, para pessoas próiximas a mim, empolgação: 'Vi tal coisa maravilhosa'. Nenhuma vez. Ao contrário:decepção. As pessoas vão com toda boa vontade e saem decepcionadas. Muitas pessoas dizem: 'Mas essa é a função da arte de hoje. Criar esse tipo de embaraçamento etc e tal.'"
Primeiro: com que pessoas tu tem conversado, Voltaire? Acho melhor arranjar amigos mais cultos. E sim, uma das funções da arte de hoje é criar "esse tipo de embaraçamento". Algum problema nisso? Embaraçamento faz pensar e pensar faz bem, sabe? Ao menos deveria ser comum entre aqueles que se consideram intelectuais.

"Não é a questão nem só da feiura, é o mal gosto,tu entende?"
Mal gosto. Ouquei. E se gosto é tão subjetivo assim, quem disse que o mal gosto não é o seu?

(Sobre não estar sozinho no seu ponto de vista referido por muitos como nazista)
"Eu participei de um debate em que 80% das pessoas concordavam com a minha posição.Se nós chegássemos a uma avaliação, nós vamos ver que Porto Alegre está povoada de 800 mil nazistas, reacionários, burros e ignorantes, o que é um dado absolutamente alarmante sobre nossa população"
Infelizmente,é alarmante, mas é verdade: a população portoalegrense é, pelo menos, 80% ignorante.

"Hoje a arte corresponde ao que o artista acha que é arte, à sua subjetividade"
E não pode ser assim? Quem mais dirá o que é arte (ao menos num primeiro momento), se não o artista?

"É uma empulhação, tu tu tens de denunciar a empulhação"
"Eu não estou dizendo que essas obras são empulhação."
Repara na contradição.

"Eu acho que nós somos governados por uma tribo esotérica, que domina os jornais, que domina as revistas, que se associa às galerias..."
Realmente, Voltaire! Acho que é tudo uma conspiração. é tudo culpa dos Estados Unidos a arte ser assim. Somos todos vítimas desse sistema. Agora... por que criar um sistema em que a arte é tão pouco digerível que diuficilmente será comercializada, quando poderia se ter mantido a arte bela, que agradava a todos e movimentaria muito mais dinheiro? Não seria bem mais interessante para os EUA?

"As pessoas se sentem aterrorizadas, com medo de comentar qualquer coisa.Elas saem de uma exposição, não gostam e não tem coragem de dizer. Lembra um pouco o filme da minha geração , o nouvelle vague"
Ah sim. NINGUÉM fala mal da arte contemporânea. Realmente, não sei com quem o senhor anda: nem com pessoas que são cultas o suficientes para gostar de alguma coisa da Bienal, nem com as ignorantes que esculacham a Bienal sem fundamento nenhum.
E acho um elogio comparar a Bienal à nouvelle vague. Se todos artistas da Bienal fossem Godards, ela seria muito melhor.


"Em parte, o que acontece é fruto da Guerra Fria. "
Digamos que quase tudo é fruto da Guerra Fria, não? Afinal é uma coisa muito recente, que influenciou o mundo inteiro e não teria como não ter conseqüências na arte. Mas, será que isso se deu com tanta intencionalidade dos EUA em propagandear esse tipo de arte? Pra mim isso ainda não faz sentido.

"Mas o que interessa a subjetividade dessas pessoas (dos artistas)?"
E o que interessa a sua, professor?

"Esses ambientes artísticos estão sendo substituídos por marcineiros, por pedreiros"
Vou te dar uma aulinha de HISTÓRIA da arte (algo que deveria ser desnecessário, já que o senhor é um HISTORIADOR). Desde Duchamp, com os "ready-mades" o fazer manual vem sendo questionado. A partir dos anos 50, principalmente com o pop e sua reprodutibilidade de imagens cotidianas, e, mais ainda, com o minimalismo e a "ausência" do artista (vide trabalhos de Judd e LeWitt), passou a se questionar qual era o papel do artista: idealizar ou executar fisicamente uma obra. E hoje a noção aceita é de que o artista é quem cria a obra no campo das ideias, não no campo físico; ou seja: não importa quem teve o trabalho manual, mas sim o trabalho criativo, que, convenhamos, é bem mais complexo que o simples executar. Como a parte artesanal é bem mais simples que a outra, ela não precisa ser do encargo do artista, sendo então tercerizada. Portanto, os artistas ainda existem, mas eles, felizmente, passaram da fase de ter que se dar o trabalho com a artesania.

Ouquei?


Sugestão de leitura (a Voltaire e àqueles que pensam como ele): ARTE CONTEMPORÂNEA - Uma História Concisa, de Michael Archer.

PS: Não estou defendendo que tudo na Bienal seja bom (quem leu os 2 posts anteirores sabe!) . Apenas acho lamentável que um historiador tenha uma visão tão ingênua a respeito da arte, que está tão relacionada com a história, e inconcebível que ele se utilize de sua autoridade para falar tanta coisa sem fundamento e influenciando tanta gente.

Friday, December 04, 2009

Pra não dizer que não falei das flores


Variaciones sobre el Santo Job, José Alejandro Restépo



Como no último post não especifiquei nenhum ponto positivo da bienal, aqui cito alguns:

José Alejandro Restépo, com a obra mais impactante, na min ha opinião:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/jose-alejandro-restrepo

Maria Lucia Cattani, com vídeos deliacados e sutis:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/maria-lucia-cattani

Cildo Meireles, com Introdução à nova crítica, Malhas da liberdade e Estudo para Tempo:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/cildo-meireles

Daniela Thomas, com sua peça Breath:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/daniela-thomas

José Antônio Suarez, com seus cadernos:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/jose-antonio-suarez

Marta Minujin, com seus desenhos-projetos:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/marta-minujin

Nicolas Floc'h, com sua troca:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/nicolas-floch

Nina Lola Bachhuber, com desenhos no MARGS e escultura no Cais:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/nina-lola-bachhuber

Walmor Correa, naturalizando equívocos:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/walmor-correa

Anna Maria Maiolino, videoartista e desenhista:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/anna-maria-maiolino

Abraham Cruzvillegas, tratando da memória:
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/abraham-cruzvillegas


Henrique Oliveira, com o que foi apelidado de "Casa Monstro" (Voltaire, seu véio caquético prepotente, recicle-se.)
http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/pt-br/henrique-oliveira


Tapume, Henrique Oliveira

Thursday, December 03, 2009

Que fim levaram todas as flores?

ou "A Bienal do Vazio"
ou "A Bienal grita, mas eu não escuto"


Mais uma Bienal do Mercosul se acaba, e minha cabeça se enche novamente de questionamentos. Ainda não digeri bem a exposição, mas o que tenho a dizer agora é que me pareceu uma Bienal vazia. Vazia de forma, vazia de conceito: exceto ao MARGS, quase tudo que foi exibido me pareceu artisticamente carente. A preocupação maior dos artistas foi abordar um conceito, defender uma ideia, o que fez com que acabassem esquecendo dos aspectos formais. Na minha opinião de estudante de artes visuais, como o nome do campo já indica, a obra tem que cativar primeiramente pelo que vemos. Se isso nos atrai, então vamos nos perguntar o que ela tenta nos dizer. Infelizmente, o artistas vem se preocupando cada vez menos com os aspectos formais (dizem que isso é uma questão moderna, não contemporânea)e focando no conceitual. E se a estética é fraca, o conceito tem que ser forte. E o que acontece se esse é clichê? O que se faz quando, pelo olhar, a imagem não nos toca e seu discurso é filosofia barata, discussão óbvia, debate de aula de religião? Por, último, pergunto: o que fazer se a Bienal grita e eu não escuto? Aí fica difícil até mesmo pra quem vai disposto a romper preconceitos.

Olha, depois de visitar as exposições do Cais do Porto e do Santander Cultural, não sei mais o que será do meu futuro. Sinceramente, se isso - ter como essencial algum discurso e não tocar sensivelmente- é o contemporâneo, sou mesmo um projeto de artista modernista. Minha questão é formal. Meu apelo é pelos sentidos, não pela razão. Meu tesão é pelo inconsciente. Gosto do indizível.

O que será da arte no século XXI? Será o fim da história da arte, como diz o título do livro de Hans Belting? É... de novo me vejo conversando com Tom Wolfe e resta a pergunta: Que fim levaram todas as flores?

Thursday, April 09, 2009

Compreendendo a arte

A arte pode não ser uma ciência (felizmente!), mas não deixa de ser uma forma de conhecimento. Sendo assim, precisa-se de dedicação para se atingir sua essência. Ninguém nasce absorvendo arte, apesar de desenvolver-se, desede muito cedo, um gosto. O problema é que se deve desvincular a arte desse patamar tão subjetivo.

Não pretendo afirmar que a arte deva ser exata e que é vazia de subjetividade: há, sim, em seu campo, muita sensibilidade envolvida. Mas, ao falar em sentir, gostaria aqui de me referir a algo construído a partir de uma bagagem artística. Logo, apesar de podermos simplesmente gostar mais de uma cor do que de outra (gosta-se porque se gosta), não podemos limitar a arte a esse tipo de julgamento. Afirma-se isso, pois não se pode apresentar uma obra de arte contemporânea a um leigo e esperar que ele goste dela.

Tentarei ser mais clara: na avaliação das coisas banais, não há complexidade alguma, por isso pode-se aceitar o "gosto" ou "não gosto", que não são julgamentos complexos. Já naquilo que não é simples, não se pode satisfazer-se com o gostar ou não (gosto é gosto!). E a arte não é nem um pouco simples.

Assm, só compreenderá por que uma vaca morta dentro de um "aquário" é considerada um objeto de arte valiosíssimo, quem tiver o conhecimento da arte e compreender que essa não se limita à fruição espontânea do gostar. Precisa-se ter um olhar acostumado, uma história de freqüentação,leituras fundamentais e constante reflexão.

Um pouco de autobiografia: com 8 anos, meu ídolo era Da Vinci e meu anti-ídolo, Picasso. Pelos nove, dez anos, comecei a me interessar pelos impressionistas e achar os renascentistas desinteressantes. Já pelos doze, minha atenção voltou-se para Picasso (aquele sobre cujos desenhos expostos numa Bienal tive vontade de cuspir) e por ele fui obcecada por um bom tempo. Hoje, próxima dos dezoito, sou fascinada pela arte contemporânea e sua enorme variação de artistas: lúdicos ou agressivos, poéticos ou matemáticos, estáticos ou híbridos.... e poucas coisas me instigam tanto quanto os animais de Damien Hirst ou os monstrengos bizarríssimos de Patricia Piccinini.

Portanto, para entender a complexidade da arte atual, recomendo começar das coisas mais belas e tradicionais, passando por cada vanguarda, até chegar na metade do século XX. Se sobreviver até aí, digo, se estiver convencido de que tudo que se considera arte (pela crítica, pela história)merece essa denominação, já pode-se enfrentar a contemporaneidede. Algumas dicas básicas: arte não serve para decoração - aliás, não serve para nada, sua razão de ser é simplesmente de "arte pela arte" - por isso, esqueçam a interrogação:" Quem vai colocar isso em casa?!" . Segundo: arte não tem de ser necessariamente bela e agradável, desde que provoque alguma comoção na gente, positiva ou negativa. Logo, algo repugnante, revoltante, pode ser extremamente artístico. Por último, o valor da arte não está no trabalho que deu ao artista para executar a obra e sim no quanto essa nos toca. Portanto, se apenas uma linha no vazio me tocar, ela é arte. Além disso, pode parecer estranho, mas, normalmente, as obras mais minimalistas de um artista são as mais maduras, ou seja, para ele chegar nessa síntese extrema, ele teve de fazer coisas visualmente muito mais elaboradas.

Queria deixar claro que nesse texto me referi às artes visuais, mas acredito que também na música, na literatura ou no cinema, a teoria de que precisa-se de um "estudo" da arte, de uma familiarização com ela para poder-se compreendê-la é válida. Um exemplo bobo: quando se trata de Beatles, começa-se ouvindo Please Please Me , para depois se conseguir apreciar um White Album (se minha cultura musical fosse mais significativa daria um exemplo melhor).Da mesma forma, ninguém digere Galuber só tendo assistido a filmes hollywoodianos.

Por último, acho importante dizer que sempre haverá artistas com os quais não nos identificaremos, isto é, cujas obras não nos afetarão, por melhores que sejam. Eu, por exemplo, ao ver um Mondrian, pouco me emociono. Porém, isso não justifica eu desrespeitá-lo, pois tenho noção da relevância de sua obra, mesmo essa tendo pouco significado para mim. Por isso ressaltei no início do post a importância de separar a subjetividade da análise artística (crítica e objetiva).


O "mínimo" de Miró: cheio de expressão e posterior a muitos "exageros"



A fonte de Duchamp: impossível falar-se em ruptura, em um novo conceito de arte, sem passar por ela.





"Mother And Child", as vacas mergulhadas em formol: uma das obras mais caras de todos os tempos. Se alguém comprará para decorar sua casa? Improvável.



"Fantasia de Compensação" : o processo cirúrgico de um homem recebendo órgãos caninos, criação de Rodrigo Braga, do qual já falei aqui em outro post. Outra obra que desconforta, provocando náuseas e revolta.

"We Are Family": as criaturas horrendas de Patrícia Piccinini, provando que nem sempre o belo está presente na arte.

Thursday, March 05, 2009

Picasso: o artista sem estilo



Foto de David Douglas Duncan




Foto de Robert Doisneau






Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de Los Remedios Cipriano de la Santissima Trindad Ruiz y Picasso, nascido em 25 de outubro de 1881, na cidade catalã de Málaga e mais conhecido como Picasso (sobrenome da mãe), sempre gostou de desenhar. Seu pai, pintor medíocre e preofessor, logo viu o talento precoce do menino (Pablito, será?) e decidiu entregar-lhe seus pincéis e encaminhá-lo à Barcelona, onde estudaria arte. De fato, na época – ao contrário do que ocorre hoje -, Barcelona não era lá um grande centro artístico, mas sim o que havia de mias acessível ao jovem arteiro considerando-se localização e condições financeiras.

Tendo seus primeiros quadros vendidos na nova cidade, mudou-sem para Madrid. No entanto, bom mesmo seria ir à Paris, onde a arte realmente acontecia. Então, em 1904, já tendo passado por lá anteriormente, mudou-se definitivamente para a Cidade Luz. Lá conhece não apenas os prostíbulos, como os cafés, e, da mesma forma, tanto as mulheres – e quantas! – como grandes artistas e intelectuais (Apollinaire, Jean Cocteau e Gertrude Stein..).

Apesar dos anos sofridos de miséria em Paris, Picasso foi recompensado, tornando-se, anos depois, milionário. No entanto, só se pode falar em recompensa, considerando-se seu árduo trabalho, sua determinação, ao contrário de alguns de seus contemporâneos que eram antes boêmios que artistas.O próprio artista dizia:“Morrerei de pincel na mão”, e, se não morreu, foi por acaso, já que continuou produzindo até seus últimos dias. Sobre isso, Carlos Heitor Cony, na revista Manchete de abril de 1973, afirma: “Enquanto outros artistas e escritores se devoravam nas fórmulas abstratas da arte e da vida, Picasso ia imprimindo um ritmo vertiginoso à sua produção, abrindo a sua inspiração a todos os caminhos que se cruzavam à sua volta, mas sem esquecer que a arte requer uma disciplina existencial – e a primeira e mais pesada manifestação dessa disciplina era o trabalho.”

Porém, Picasso não somente se diferenciava de seus colegas pela disciplina, mas também por sua inquietude, que o fazia transitar por todos os estilos, concedendo complexidade e inclassificabilidade à sua obra. “ A sua arte atravessaria 80 anos de história da pintura, seria contaminada por todos os movimentos de seu tempo – e a todos poderosamente contaminaria. Do realismo ao surrealismo, do cubismo ao expressionismo, da fase azul à fase rosa, dos retratos às gravuras eróticas, da escultura à cerâmica, da ilustração de livros aos murais, de tudo Picasso provou, mas sempre quis mais.” Certa vez, ao ser perguntado sobre qual dos seu períodos gostava mais, respondeu: do próximo. Pode-se dizer que, se nós o consideramos o pintor de todos os estilos, ele, paradoxalmente, se denominava um pintor sem estilo.

No entanto, há algo que conservou em todas suas fases: a hispanidad. “Sua vontade de ser espanhol só era menor que sua vontade de ser pintor” , afirma Cony. Assim, foi a Paris para evoluir como pintor, mas, mesmo após anos vividos na cidade, nunca naturalizou-se francês, concentrando-se em manter-se espnahol. Como conseqüência, suas obras nunca abandonaram os resquícios espanhóis, apresentando como temática as touradas, as crianças, as fanfarras, e como característica as cores, a luz e a vitalidade do seu país de origem.

Não gastarei meu tempo falando de suas inúmeras mulheres-trocava de mulheres como trocava de pincéis -, apesar de elas terem tido efeito significativo em sua obra ou mesmo sido tema dela (uma de minhas séries favoritas é a dos retratos de Dora Maar) , pois isso é o que as pessoas mais parecem saber sobre Picasso (relacionamentos sempre dão o que falar). Também não falarei de sua relação com Franco e a segunda guerra e, portanto da Guernica, porque isso se aprende no colégio. Fecho esse post com duas citações suas a respeito da arte:

“ Não existe liberdade para ninguém, muito menos para o artista. A obra escraviza.”

“A arte não não é casta. A arte é perigosa. É reveladora. Se é casta ou se não revela, não é arte.”

"O que você acredita que é um artista? Um imbecil que só tem olhos se for pintor, ouvidos se for músico, ou uma lira em todos os andares do coração se for poeta? Muito pelo contrário, ele é ao mesmo tempo um ser estético, constantemente em alerta diante dos dilacerantes, ardentes ou doces acontecimentos do mundo, refletindo-os na forma como realiza sua obra. Como seria possível desinteressar-se dos outros homens? Graças a qual indolência, dissociar-se de uma vida que eles lhe trazem de modo tão abundante? Não, a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo."

"A obra de um artista é uma espécie de diário. Quando o pintor, por ocasião de uma mostra, vê algumas de suas telas antigas novamente, é como se ele estivesse reencontrando filhos pródigos - só que vestidos com túnica de ouro."
"A Arte não é a verdade. A Arte é uma mentira que nos ensina a compreender a verdade".

"O artista é como um receptáculo de sentimentos que vêm de toda a parte:do céu, da terra, de um pedaçõ de papel, de uma figura que passa, ou de uma teia de aranha"



A pomba, um dos símbolos do artista, em versão minimalista

O minotauro, motivo muito freqüente





Retrato de Françoise Gilot




Guernica, a obra prima



A face escultora




"La joie de vivre"






A fase clássica







Obra inaugural do cubismo








"As banhistas"









Fase rosa









Fase azul




Um Picasso impressionista




Wednesday, February 11, 2009

No meio do caminho - Ensaio sobre Benjamin Button

Acabo de chegar em casa do cinema. Assisti ao tão comentado "O Curioso Caso de Benjamin Button". Mesmo tendo ido com altas expectativas do filme, não houve frustrações e sim surpresas. A principal delas foi a maneira com que o filme me tocou. Não sou de chorar em filme, mas esse me obrigou a fazer um esforço enorme para conter as lágrimas ao término da sessão, quando quis esconder a maquiagem borrada do resto da platéia.

Também não sou dessas pessoas que se deixam levar pelas emoções e colocam o que tiver para fora, independente das circunstâncias, por mais inadequado que isso seja vindo de uma artista plástica. Dificilmente me sensibilizo com algo a ponto de imediatamente após ter tido contato com o mesmo - seja um acontecimento ou uma obra de arte - ir correndo desabafar, ou seja, expressar-me, ainda mais quando passa da meia noite. Fosse qualquer outro filme, peça, show ou exposição, já estaria no conforto do meu travesseiro, na segurança da minha rotina. Dessa vez não me contive, ignorei o relógio e decidi externar o que o filme produziu em mim.


......

Ao sair da sala de exibição, tudo que eu olhava parecia mais carregado de vida, lembranças, significados. Pessoas ao meu redor davam-me a impressão de estarem sendo levadas para um caminho do qual não escapariam:(nascer) crescer, envelhecer, morrer. Cada objeto me lembrava uma fase da minha vida e me fazia pensar em como tudo passou, como tudo escapou. Como nada pude, nem poderei controlar. Fraldas brotavam no meu campo de visão como para me lembrar de que eu já as usara e de que um dia as colocaria em alguém saído(a) de mim.




Enfim, a marcha inexorável dos anos, muito bem retratada no filme. Uma pessoa que nasce idosa -um bebê com rugas -, vive uma infãncia geriátrica - por sua aparência e pelas pessoas que o circundam numa espécie de asilo - em que conhece uma menina aproximadamente da sua idade, mas obviamente com aspecto infantil, chamada Daisy; e vai rejuvenescendo, à medida que muitos à sua volta vão envelhecendo e outros partindo (o que vai comovendo-nos conforme se dá o enredo). Seja Benjamin, o protagonista de crescimento invertido, seja o resto dos personagens , que representariam a população "normal", todos sofrem a ação do tempo e nada podem fazer para controlá-la. Exemplo disso é quando, já na reta final da história, Benjamin Button, fisicamente uma criança, é entregue aos cuidados de uma idosa chamada Daisy, a mesma com quem tivera um romance na época em que ambos se encontravam na metade do caminho.




Nessa metade é que parece se dar a lucidez dos personagens, de que nada seria pra sempre, de que cada um sofreria os efeitos da passagem dos anos e de que teriam de aceitá-los. Como dizia um professor que tive, é por volta dos quarenta anos, da metade da nossa vida, da metade do caminho, que nos deperamos com a pedra, metáfora da morte utilizada por Drummond ("No meio do caminho tinha uma pedra...."). Eu posso não ter tido ainda meu momento de esclarecimento da morte do alto (baixo seria mais adequado) dos meus dezessete anos, mas, com certeza, esse filme mecheu comigo nesse ponto, na idéia de finitude, na percepção de que pode-se passar a vida toda lutando contra o destino, mas na última hora é deixar-se levar, como foi repetido em frase semelhante no filme. Contudo, se estamos todos marchando para "lá"- seja onde for - talvez fosse melhor adotarmos essa política de permissividade durante toda nossa existência, e não só no último momento....

É provável que eu tenha sido influenciada por essa citação que se repetiu no filme, que não lembro exatamente o que dizia, mas terminava com "let go", que eu substituiria por "deixar-se levar". Deixar-se levar - pela vida, pela emoção - algo difícil, mas que estou exercitando nesse exato instante ao invés de seguir o script da minha rotina regida por despertadores, alarmes, lembretes de "dos and don´ts" e ignorar minha sensibilidade.


Benjamin e Daisy no início e na metade do caminho