Tuesday, September 30, 2008

Carta ao professor / Em prol de Caetano

Caríssimo professor João Armando Nicotti:

Sei que a chance de leres isso é a mais ínfima. Contudo, minha profunda decepção em relação a ti não me permite prmanecer calada. Venho aqui a falar sobre a tua lamentável comparação entre Chico Buarque de Holanda e Caetando Veloso, repleta de sarcasmo (como de hábito) e deboche.

Primeiramente, admito a grandiosidade do Chico. Sua capacidade literária é incontestável, como se vê em letras como “Cálice”, “Joanna Francesa”, “Ana de Amsterdam”, “Construção”, “Roda-viva”, “Até o Fim” e infinitas outras. Mas é exatamente esse o ponto: como é possível alguém indignar-se diante do fato de que Chico não é chamado para cantar na tevê, se ele é um grande compositor, mas não cantor? Até canta, mas convenhamos que não é o forte dele. Eu, por exemplo, tenho uma preferência enorme por suas músicas interpretadas por cantores como Nara Leão, Elis Regina, Ney Matogrosso ou Mônica Salmaso. Por isso, querido professor de literatura, compreendo que prefiras ele em relação a Caetano, afinal, sua poesia é, normalmente, superior (o advérbio é empregado, pois Caê também tem letras fantásticas). Não achas óbvio que tenham preferência para chamar um bom cantor na hora de interpretar Tom Jobim na homenagem à bossa nova? Se quisessem que fosse criada uma canção homenageando-o, tudo bem, chamem Chico. Porém, não para cantar, por favor.

Além de ter criticado a escolha de Caetano para fazer parzinho com Roberto Carlos, o Senhor Professor criticou a popularidade do primeiro, afirmando esse ser um cantor global. Pergunta: o fato de alguém ter suas músicas em trilhas sonoras da globo ou aparecer cantando nessa emissora tira sua qualidade musical? Creio que não. Até porque, gênios da música como Tom Jobim freqüentemennte tem suas canções como aberturas de telenovelas e não por isso eles perdem sua excelência. Pra ser bem sincera, acho isso RECALQUE.

Mas se o grande *Ruski, não tolera a arte facilmente digerível, posso indicar alguns discos menos comerciais do caetano. Que tal Araçá Azul? Na minha opinião, suas músicas exigem mais do ouvinte que qualquer uma do Chico Buarque que eu conheça.

O problema é que as pessoas tem uma dificuldade imensa em compreender a capacidade de auto-reciclagem de artistas como esse baiano. Preferem o que é constante, como o carioca filho de Sérgio Buarque de Holanda. Não encaram bem as milhares de fases por que Caetano passou, sempre absorvendo como uma esponja diversas culturas, sempre se renovando, sempre surpreendendo, com suas múltiplas facetas. Caetano nunca é igual. Caetano é artista.

Já Chico, esse não é muito ligado às surpresas, no sentido de se renovar. Ele surpreende-nos, sim, com sua genialidade, com suas rimas e com sua capacidade de colocar letra em qualquer composição que lhe entreguem (desde que essa seja de bom nível). Contudo, não transita muito pelos gêneros musicais. Não é adepto às guitarras. Não mistura ritmos. Não é amigo do experimentalismo. Chico segue em linha reta. Chico é poeta.

Por isso entendo que alguns prefiram-no. No entanto, acho que, por uma questão de respeito, não se deve debochar de um gigante, ainda que se tenha predileção por outro. Não se pode falar do inventor (juntamente com Gilberto Gil) do Tropiocalismo, como se ele não tivesse um passado tão fabuloso. Como se ele não tivesse revolucionado a música brasileira. Como se ele não tivesse enxergado muito antes o que ninguém via, valorizasse nossa cultura e a mesclasse com estrangeirismos com tamanha genialidade, a qual o povo só foi reconhecer tempos depois de sua consagração (sem falar nos que ainda não reconheceram...).

Também achei de uma ignorância meu professor ter mencionado a crítica política de Chico Buarque defendendo sua superioridade em relaação a Caetano nesse aspecto. Sim, Chico escreveu “Cálice”, cantou “Cale-se”. Mas reconheça, por favor, que Caetano não foi nenhum alienado nesse período. Pelo contrário, foi preso, exilado! Pode não ter composto muitas músicas voltadas para o debate político, mas suas atitudes e suas palavras fora do palco devem ser lembradas como atos de descontentamento e rebeldia. Além do mais, rebelar-se contra a ditadura não significa apenas compôr contra essa, mas também criar uma sonoridade livre, demonstrando-se, por conseguinte, contra qualquer tipo de conservadorismo vigente.**

Por último, o argumento mais lamentável utilizado pelo professor João Armando Nicotti foi sua crítica às preferências sexuais do meu amado cantor: disse que respeitava sua bissexualidade (acho que ele falou HOMO, o que é mais uma mentira), mas não compreendia sua atração por ACM e , portanto, não poderia levá-lo a sério. Ouquei, sôr, se é por isso, afirmo: até entendo que Chico aprecie futebol, mas... ser tricolor? Isso não....!
*Ruski, de russo: é um dos apelidos do professor, devido a seu gosto pela literatura russa.
(uma prova da "falta de engajamento" político do meu baiano...)





Sunday, September 07, 2008

Paródias

1)Manuel Bandeira x Júpiter Maçã






Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei



Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive



E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada



Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar



E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

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Um lugar do caralho


Eu preciso encontrar
Um lugar legal pra mim dançar
E me descabelar
Tem que ter um som legal
Tem que ter gente legal
E ter, cerveja barata
Um lugar onde as pessoas sejam mesmo afudê
Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho


Sozinho pelas ruas de São Paulo eu quero achar alguém pra mim
Um alguém tipo assim:
Que goste de beber e falar,Lsd queira tomar e curta
Syd Barrett e os Beatles
Um lugar e um alguém que tornarão-me mais feliz
Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho
Um lugar do caralho



2) Gonçalves Dias x Gilberto Gil






Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.


Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

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Back in Bahia
Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui
Vez em quando, quando me sentia longe, dava por mim
Puxando o cabelo nervoso, querendo ouvir Celly Campelo pra não cair


Naquela fossa em que vi um camarada
Meu de Portobello cair
Naquela falta de juízo que eu não
Tinha nem uma razão pra curtir
Naquela ausência de calor, de cor, de sal,
De sol, de coração pra sentir
Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim
Digo num baú de prata porque prata é a luz do luar
Do luar que tanta falta me fazia junto do mar
Mar da Bahia cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar
Tão diferente do verde também tão lindo dos gramados campos de lá
Ilha do Norte onde não sei se por sorte ou por castigo dei deparar
Por algum tempo que afinal passou depressa, como tudo tem de passar
Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá




Monday, September 01, 2008

A imprensa anda cada dia mais "divertida"...

1. Por que a imprensa odeia tanto o Caetano?! Só pode ser dor de cotovelo... O cara respira e já arranjam uma implicância nova. Parece até que estamos de volta aos anos 60-70, quando achavam que tudo que ele dizia ou fazia era subversivo, contra o país... Prmeiro passam a julgar ele por um momento de fraqueza que ele teve ao se irritar com aincompetância da Emetevê em um show. Depois, distorcem completamente o que o homem disse quanto aos candidatos à presidência doe Estados Unidos, levando a afirmação "Prefiro preto à mulher" pro lado sexual, quando tratava-se de um comentário em relação ao modo de governar de cada um (posteriormente ele modificou a frase:“Talvez eu tenha dito que prefiro à causa dos negros à causa das mulheres”). E agora, deram pra falar mal do show dele com o Roberto. Ok, criticar arte também faço, mas que critiquem direito!

Para mais informações, o blog do mestre:
www.obraemprogresso.com.br



2.Estou seriamente pensando em assinar a Veja. Assim, quando estiver querendo me divertir, tenho algo pra ler... Para quem está atrás de diversão, recomendo a Veja da semana retrasada, entitulada "O inssino no Brasiu è otimo". Abrindo a revista, espera-se uma crítica à qualidade do ensino brasileiro em termos de formação de lógica e, principalmente de expressão escrita. No entanto, a reportagem surpreende, criticando a falta de formação dos professores, principalmente os de esquerda(ou não de extrema direita) e a "doutrinação" que estes fazem com os alunos (em momento algum se fala que os estudantes mal sabem escrever, como sugere a capa). A palavra aparece entre aspas, pois a revista passa a considerar a equação formar=doutrinar, alegando que todos os educadores que acreditam ser mais importante formar cidadãos a simplesmente ensinar a matéria, serem doutrinadores (pelamordedeus!!!!).
A reportagem possui uma série de equívocos,como quando afirma que atualmente as máquinas não tiram mais empregos e que dizer que o fazem é não capacitar os alunos para o mundo em que vivemos, em que a tecnologia é reponsável por muitos empregos(a matéria coloca, inclusive, que no século dezenove a industrialização foi responsável por tirar nove em cada dez pessoas da pobreza). Ela faz isso no intuito de criticar um professor anchietano que, ao ensinar Revolução Industrial , explicou que o desemprego até hoje pode ser causado por melhorias tecnológicas, sugerindo que os filhos de empresários questionassem seus pais a respeito do assunto, isto é, se eles estavam contribuindo para o desmprego.
Duas críticas construtivas:
Primeiro: é impossível falar de Revolução Industrial sem citar desemprego ou sem criticar grandes empresários da época, e isso não é nenhuma esquerdização, mas uma narração de fatos históricos.
Segundo: já que a Veja é alienada e pensa que vivemos em um mundo cor-de-rosa, gostaria de citar o Iguatemi de Porto Alegre como exeplo de empresa que tira empregos ao adotar tecnologias, como fez há alguns anos em seu estacionamento.

Há outras aberrações na reportagem e, como sempre, a revista voltou a atucanar o finado Guevara. Dessa vez, não o chamou de fedorento como anteriormente, mas chegou ao ponto de afrmar que Che só serviu para enriquecer empresários do ramo da moda com as estampas da foto lendária do revolucionário. Esse absurdo se deu na tentativa de refutar um livro de história que explicava que o argentino poderia ter se dedicado à medicina e ter levado uma vida tanqüila e burguesa, mas, em vez disso, foi lutar pelos fracos e oprimidos (péssimo clichê de expressão, por sinal).Por fim, a Veja completa que o líder teria ajudado muito mais pessoas tornando-se médico e salvando inúmeras vidas com a descoberta de uma vacina (até porque, isso só um médico muito incompetente não faz, basta ver como surgem milhões de novas vacinas por ano).

Ah, lembrei de mais uma: a revista parece indignada com o fato de os professores se identificarem mais com Paulo Freire do que com Einstein. Okay, ñão entendi o porquê. Afinal, é lógico que, como EDUCADORES, terão maior identificação com um EDUCADOR!

E, finalizando a leitura do texto da Veja, pode-se concluir que o feitiço virou contra o feiticeiro: na reportagem, critica-se o fato de os professores estarem esquerdizando os alunos, mas a revista faz o mesmo em sentido contrário com seus leitores, tentando direitizá-los, falando mal de qualquer coisa que pareça um pouco esquerdista e direcionando a opinião desses, como quando compara o ensino do Brasil com o da Finlândia, mostrando duas fotos: do primeiro país, uma sala simples com alunos de ensino fundamental e escola pública (provavelmente); do segundo, um laboratório de química com alunos de ensino médio. Baita trapaceiros!

Aiai, no mínimo, hilário. Confiram!