Vamos ao que interessa nessa vida: ARTE. Como essa palavra abrange muitas coisas, devo avisá-los que falarei das plásticas/visuais, seja lá como queiram chamar. Não entendo o porquê, mas este é justamente o tipo de arte mais rejeitado pelo povo – e não me refiro apenas às pessoas menos instruídas, mas também aos intelectuais. Mas, tudo bem, não é todo mundo que é tocado apenas por uma imagem (“nada mais monótono do que ficar parado na frente de uma tela em um museu... pelamordedeus!”) e além do mais, cada um com suas preferências.
Na verdade, o conceito de artes plásticas, hoje em dia, não se limita a um quadro, nem mesmo a uma imagem, afinal, pense bem: as instalações podem possibilitar uma experiência sonora além de visual , como no caso da vídeo-instalação, ou ligada a qualquer outro sentido (olfato, tato, etc.). Poderia escrever um post inteiro falando de como cada vez menos podemos categorizar as diferentes modalidades das artes, já que estas estão cada vez mais “miscigenadas”, mas falarei do que tanto me “atucana”: a indignação das pessoas diante da arte contemporânea.
Primeira coisa, caros e caras: sei que não posso esperar que entendam o que é visto na Bienal ou em qualquer exposição de arte contemporânea, pois a arte está sempre a frente do seu tempo e portanto, nunca é bem compreendida por seus contemporâneos. Porém, tentem acreditar que não é preciso entendê-la para apreciá-la, mas simplesmente sensibilizar-se com esta. Assim, posicionarei-me na intenção de amenizar essa revolta na cabeça de (quase) todos.
Antes de começar meu discurso, uma pergunta: De onde tiraram que a arte, para ter qualidade, tem de mostrar que o artista desgastou-se fazendo a obra? Ou então, quem disse que para ser bom tem de ser perfeito?! É, infelizmente, como minha professora de artes do Anchieta disse, até hoje há gente que diga que Picasso é uma porcaria, justificando-se com algo do tipo: “esses rabiscos, até eu faço.” Agora, parafraseando minha outra professora de artes e mestra, Nerê Preto, pergunto-lhes: “Ah é?Então por que não faz?”. Conhecendo a opinião da grande maioria a respeito do artista espanhol que acabei de citar, admito que não mais me surpreendo com a reação do público ao olhar uma instalação ou qualquer objeto de arte contemporânea, afinal, se, para este, nem o cubismo “presta”, nada mais digno de depreciação que as criações atuais .
Todavaia, compreendam, por favor, uma coisa: a qualidade não está apenas na perfeição, mas também na originalidade. Às vezes, um “arteiro” pode até não passar tanto trabalho na execução de uma obra, enquanto que na elaboração desta, no desenvolvimento da idéia em si, não poupa esforços. Portanto, valorizemos a criatividade! Se há algo que me encanta na arte atual é a liberdade que os criadores têm para expôr suas idéias sem medo, permitindo um livre-fluxo de pensamentos e assim muito maior espontaneidade. Do meu ponto de vista, nada pode ser mais verdadeiro do que o que vier de dentro daquele que cria, sem medo e proibições.
Mas, tudo bem, tudo bem, havemos de convir que também há muita porcaria na arte de hoje em dia. Por exemplo, vamos supôr que eu simplesmente pegasse um papelzinho de chiclete Trident e colasse em uma parede branca, afirmando isso ser a mais pura arte, através de uma bela explicação cheia de palavras pomposas que mais confundissem do que esclarecessem o entendimento dessa obra. Isso, realmente, seria o fim, admito. Talvez o principal problema da arte contemporânea seja a sua literalização. Este fenômeno, conforme Tom Wolfe conta-nos em A PALAVRA PINTADA (sim, daí mesmo que eu tirei o título – LEIAM!) começou desde o início da pintura moderna, quando os críticos começaram a intrometer-se demasiadamente no processo de criação, e foi crescendo até o ponto em que a teoria passou a valer mais que a obra em si, ou seja, a obra poderia até não ser das melhores enquanto sozinha, mas, acompanhada de sua aliadinha (ou não), a palavra, passaria a obter seu mérito. Absurdo, né? Bom, lá vou eu a transcrever trechos (manias, perdão):
‘“O realismo não carece de adeptos, mas carece, visivelmente, de uma teoria convincente. E dada a natureza do nosso intercâmbio intelectual com as obras de arte, carecer de uma teoria convincente é carecer de algo crucial – o meio pelo qual a nossa experiência de obras individuais se soma à nossa compreensão dos valores que elas simbolizam”.
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O que via diante de mim era o crítico-chefe do The New York Times dizendo: na observação de uma pintura, hoje, “carecer de uma teoria convincente é carecer de algo cruical”. Tornei a ler. Não dizia é “algo desejável” ou “que enriquece” ou mesmo “extremamente valioso”. Não, a palavra era crucial.
Em suma: francamente, nos dias que correm, sem uma teoria para endossá-la, é impossível ver uma pintura.’
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Todos esses anos,em suma, eu presumira que em arte, ao menos, ver é crer. Ora - como fui míope! Agora, finalmente, em 28 de abril de 1974, era capaz de ver. Entendera a frase às avessas o tempo todo. Não era “ver é crer”, seu bobalhão, mas “crer é ver” , pois a Arte Moderna se tornou inteiramente literária: as pinturas e outras obras só existem para ilustar o texto.’
Relendo o que acabei de escrever, tenho certeza que aqueles que já não gostavam da arte contemporânea, passaram a odiá-la, só pelo último parágrafo que escrevi e pelo trecho do Tom Wolfe. Ainda assim, permaneço em defesa desta, pois acho que se for boa, nos possibilitará experiências sensoriais maravilhosas, independente do texto que a acompanhar. Desta maneira, devemos, acredito, primeiramente, olhar para um objeto exposto e tentar “vivê-lo”. Se ele exercer algum efeito significativo em nós, isolado de sua teoria, seja instigando-nos, agradando-nos, etc, poderemos pensar nesta. Porém, se querem mesmo saber, tenho uma preguiça inexorável de ler as explicações e críticas relacionadas à arte – satisfaço-me plenamente enquanto meus sentidos estiverem saciados.
Dedico este texto à Sabrina, encurralada no Renascimento (sem ofensas, Sabrininha).
Espero não ter ofendido, irritado ou confundido ninguém.
Se pareci ambivalente, lamento, mas é impossível falar de arte sem se deparar com paradoxos.
Atenciosamente,
Cindi Wolfe.