I
Seguinte, minha gente: falarei mais uma vez sobre um tema polêmico, algo que vem me atucanando desde que me interessei por moda. Sim , isso mesmo, MODA, um assunto para o qual muitos torcem o nariz. No último post, havia dito que para a maioria da intelectualidade, as artes plásticas são as menos valorizadas dentre as artes. Pois bem, tratando-se da arte da indumentária, a situação é ainda pior: quase ninguém reconhece o seu valor artístico. Portanto, estou aqui para defender todos os estilistas e criadores deste setor que são vistos com de maneira fútil pela maior parte da população.
Primeiramente, quero difundir aos senhores leitores minha definição geral de arte:
“Arte é tudo aquilo que o homem cria, capaz de tocar alguém de maneira significativa”
Cindi Wolfe*
Ok, mais um impasse: o que é arte para mim pode não ser para outra pessoa, a partir da noção de que mesmo que uma obra me toque, não quer dizer que toca o outro. Assim, como não posso forçar ninguém a sentir o que eu sinto diante de uma vestimenta, apenas defenderei esse sentimento, pois fico indignada com pessoas que, mesmo não tendo uma sensibilidade visual apurada, afirmam piamente que moda, de forma alguma, é arte, esquecendo-se que estão em campo desconhecido. Para piorar a situação, esses mesmos indivíduos acreditam que um Da Vinci é arte, somente por ser, há séculos, reconhecido assim. Portanto, penso que temos o direito de não considerar algo que não nos sensibiliza uma forma de arte mas, da mesma maneira, devemos respeitar tal.
II
Uma das minhas inspirações para esse texto foi um quadro do programa Especial São Paulo Fashion Week, do canal GNT, no qual a apresentadora, artista, filósofa, etc., Márcia Tiburi, lançou a pergunta: “Se moda é arte, você penduraria esse vestido na sua parede, ou mesmo vestiria esse quadro?”*. Quando ouvi aquilo, surtei. Achei o que ela disse um absurdo total, já que uma obra de arte não se limita a um objeto preso na parerde, muito menos tem a decoração como função principal . Também, da mesma forma, a moda não tem como único objetivo vestir as pessoas!
Provavelmente vocês concordaram que arte não serve apenas para decorar paredes, ao menos é o que espero, depois do que escrevi sobre arte contemporânea no post anterior. No entanto, aposto que não é tão fácil digerir que moda não só existe para vestir pessoas. Se tudo que se criasse em termos de indumentária fosse feito para o povo sair usando, o mundo provavelmente não se espantaria a cada vez que visse um desfile, nem se perguntaria: “Quem é que vai usar um torço desses?!” .
É evidente que o surgimento da indumentária nasceu da necessidade de vestir a população. Porém, isso não impede ninguém de expressar-se através da criação, ou até mesmo combinação, de roupas. Estilistas, também são artistas. Eles – digo, os verdadeiros criadores, e não os imitadores – podem até ser sustentados pelas roupas comerciais, mas só fazem isso porque precisam. Já ouvi designers de moda famosíssimos, confessando que seriam muito mais felizes se pudessem criar livremente, sem o peso das tendências que os assombram a cada estação. Todavia, não podem, pois arte, dificilmente, vende.
Ainda assim, essas peças não vendáveis podem ter seu proveito em uma coleção – daí o espanto de muitos ao verem o que as modelos desfilam- servindo para traduzir o conceito desta. Além das roupas conceituais, um desfile pode receber cenário, iluminação, trilha sonora, coreografia, etc, para enfatizar a mensagem da coleção, ou apenas “emoldurá-la”. Com tantos adornos, uma passarela pode se transformar em palco para uma performance artística. Um bom exemplo disso, foi o desfile de Jum Nakao para o verão de 2005, que surpreendeu a todos que o assistiram, não só pelas criações do estilista, feitas inteiramente de papel, mas também pela originalidade da performance, que culmina em um final de grande impacto. http://www.jumnakao.com.br/ci_desfile.htm
http://www.jumnakao.com.br/ci_desfile.htm
III
Na minha opinião, o grande problema que impede as pessoas de levarem a moda a sério são as peruazinhas infiltradas nesse meio, que pensam entender do assunto por vestirem-se sempre com as últimas tendências e terem peças caaaaaaaaarésimas, enquanto que, não tem a mínima noção do processo criativo daquilo que usam e da genialidade de seus criadores. Logo, o que torna, muitas vezes, a moda fútil são certas pessoas envolvidas em seu meio. Por isso, ao analisar uma vestimenta, deve-se fazer o possível para desinserí-la desse contexto “poluído”. Afinal, é bem possível que, se o mesmo vestido que Nicole Kidman usou no Oscar estivesse em um museu, muitas dessas laranjetes*, obcecadas por grifes, ficariam entediadas diante dele, ou mesmo nem o perceberiam.
IV
Por quase último, gostaria de dizer que, assim como um sapato pode ser completamente desprovido de arte, um quadro também pode ser, ou mesmo um livro, um filme, uma peça, uma música, etc – ou alguém contestará o fato de Kelly Key ser nada além de uma bunda rebolante*?
V
Para não terminar, prometerei, para os que continuam não concordando comigo que moda possa ser arte, mas não desistiram de um dia concordar; que na próxima passada por aqui, postarei algumas imagens, as quais possam fazê-los mudar de opinião, ou pelo menos respeitar a minha.
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I*Peço perdão se alguém já havia formulado esta definição anteriormente mas, como (também) surgiu da minha cabeça, digo ela ser de minha autoria.
II* Confesso que, até senti pena da Márcia, uma mulher inteligentíssima, porque sei que aquela frase não surgiu da cabecinha dela – espero.
III* As laranjetes são aquelas meninas/mulheres obcecadas por um corpinho dourado que acabam extrapolando e ficando “discretamente” artificiais, tendo, além disso, muitas futilidades em comum.
IV* Antes que alguém se manifeste, eu admito: ela também tem dois peitos lindamente siliconados e uma vozinha invejavelmente irritante. Infelizmente, seus atributos não são suficientes:ela não faz arte.
2 comments:
uma obra de arte não se limita a um objeto preso na parerde, muito menos tem a decoração como função principal . Também, da mesma forma, a moda não tem como único objetivo vestir as pessoas!
Muito bom, muito mesmo.
laranjetes-hahahahahhaha, sensacional.
gostei muito do texto, concordo plenamente contigo.
beijo!
Fiquei chocada de saber que você utilizou da arte como fuga para explicar a futilidade da moda.
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