Wednesday, June 25, 2008

Querelas do Brasil

Desde a edição comemorativa de dez anos da São Paulo Fashion Week, tenho ouvido o debate a respeito do que seria o design brasileiro. Essa polêmica, que a partir daí passou a me atucanar, engloba diversos questionamentos: existe uma identidade brasileira em termos criativos? Se sim, como mantê-la em tempos globalizados? Deve haver uma preocupação em criar produtos com a cara do Brasil?

No entanto, essa discussão não é tão recente assim: sabe-se que desde a Semana de Arte Moderna de 1922 e, mais ainda, nos manifestos que a seguiram (Anta, Pau Brasil, Antropófago...) isso está em pauta. Os modernistas da época tinham então uma enorme preocupação sobre como deveria ser a arte brasileira: uns, mais ufanistas, defendiam o índio tupi-guarani como o herói; outros, menos radicais, defendiam uma deglutição da cultura européia, sendo absurdamente acusados de afrancesados. Essa última idéia, presente na antropofagia de Oswald, dizia que deveríamos absorver a cultura do Velho Mundo e aproveitar aquilo que pudesse ser útil à nossa arte, evacuando o restante. Assim, estaríamos formando a nossa própria identidade artística.

ABAPORU: símbolo da Antropofagia


Esse conceito foi então retomado mais ou menos umas quatro décadas depois, no Tropicalismo, quando passou a misturar-se o rock´n´roll com o samba e outros ritmos daqui. Para mim, todo assunto poderia ter se encerrado por aí, mas, como a arte está em constante mudança e, conseqüentemente sempre sugerindo novas indagações, essa história não parou na época dos Mutantes. Decorreram-se então mais quarenta anos e ainda não sabemos qual é a cara da nossa arte.

Os tropicalistas

Como já disse anteriormente, o design brasileiro está vivendo um dilema. Uns sentem-se na obrigação de fazer trajes com cores vibrantes e cortes sensuais, acreditando estarem representando bem nossa identidade; já outros, estão nem aí pra essa história de design tipicamente brasileiro e vão no trem da globalização, seguindo as tendências européias; por fim , ainda há aqueles que, à exemplo dos modernistas da primeira geração e dos tropicalistas, fazem suas criações aliando o bom daqui ao bom de lá. Exemplos desse último grupo que me agradam imensamente, são os móveis dos Irmãos Campana e as roupas do Alexandre Herchcovitch, ambos coloridos, com aquela cara tropical, mas sem dar a impressão de terem saído da Amazônia (até porque, o Brasil não se restringe a essa região).


ufanismo x globalização




Alexandre: estampas à brasileira em corte à moda européia


Ronaldo Fraga: outro que mistura o conservadorismo estrangeiro com elementos da nossa cultura. No caso da foto, as roupas inspiram-se na poesia de Drummond.



Duas criações de uma das séries de poltronas mais famosas dos Campanas



Mas será que é necessário descobrir qual é o nosso estilo? Será que não estamos perdendo com essa discussão o tempo que poderíamos utilizar para desenvolver produtos incríveis? Para o arquiteto e designer Guto Índio da Costa, todo esse debate é inútil e, de fato, devemos nos focar em fazer bom design:"Just do it", prega Guto, parafraseando o slogan da Nike. Também diz ele que só quando tivermos uma tradição estética, isto é, uma geração de grandes criadores, poderemos analisar o que se faz aqui. Concorda com ele o Prof. Simon Bolton, diretor do MA Innovation Management - Central Saint Martins College, que afirma estarmos tornando uma simples discussão em um bicho de sete cabeças (tanto que não resolvemos isso em quase um século). Além desse aspecto, ele crê que, atualmente, o design brasileiro seja aquele que é bem feito aqui, como as famosas Havaianas.

Moda praia da Rosa Chá: representa o que nos torna mundialmente conhecidos.

Okay, então devemos criar sem pensar. Sei não. Apesar de ser isso que eu faço e, conseqüentemente nunca conseguir responder à típica pergunta "O que tu quiseste dizer com isso?", penso que temos sim que pensar no que criamos(tanto que, não refletindo a respeito do que crio, reflito sobre o que os outros criam - o que é bem mais fácil e prazeroso). No entanto, isso tem que ser necessariamente natural, como explicou-me uma aluna do Instituto de Artes da UFRGS. Logo, não devemos nos forçar a ter um discurso sobre o que estamos criando, mas fazer isso como um impulso natural, o que precisa ser desenvolvido, obviamente.

Outro aspecto que fortifica essa opinião é o de que estamos extremamente sujeitos à influência externa, principalmente devido à nossa falta de auto-estima. Assim, acabamos sempre fazendo as coisas inconscientemente com base no que é feito no exterior e, até mesmo, imitando o povo de lá, por não acreditarmos em nosso talento. Portanto, talvez antes de pensarmos em criar uma arte com a nossa cara, devessemos nos concentrar em criar segurança no que fazemos. Afinal, como cantava Elis Regina na música que dá título a esse texto, "O Brazil não conhece o Brasil".



Juliana Jabour e Stella McCartney: imitação grosseira.

Monday, June 16, 2008

Como provavelmente você também, tenho minhas melhores idéias no banho. Se é a água escorrendo e o efeito de relaxamento que ela produz ou o isolamento do mundo que se tem nesse precioso momento, já não sei dizer. Mas, indubitavelmente, se eu tivesse menos afazeres e (antes que o Al Gore venha me bater) se a situação ecológica do mundo fosse outra, eu iria pro chuveiro pelo menos quatro vezes por dia e lá ficaria durante uns bons vinte minutos.

Dessa vez, além do que eu acabei de relatar, pensei sobre três coisas: sobre a obra da Elida Tessler, tão carinhosamente criticada pelo Milton, e sobre o trabalho do Rodrigo Braga exposto na pinacoteca da UFRGS (que também tem recebido críticas amorosas).

Começando pelo trabalho do Rodrigo:
Acho incrível como a técnica (gestual, né, Luiza?) interfere no nosso ponto de vista a respeito da obra. Em outras palavras, um trabalho pode perder ou ganhar valor de acordo com o modo como foi feito (pelo menos é assim que acabamos julgando as coisas). No trabalho do Rodrigo Braga, a técnica foi determinante na formação da minha opinião.

Pra dar uma esclarecida àqueles que não fazem idéia de que eu esteja falando,a obra, chamada "Fantasia de Compensação", trata-se de fotos que mostram um processo cirúrgico em que cortam-se partes de um cachorro (orelha, focinho, couro, etc)e costuram-se essas no rosto de um homem. Certamente, já dá pra perceber o quão chocante é o trabalho. Ainda assim, pra quem segue a filosofia do "ver para crer" ei-lo aqui:









Pois bem. Como havia dito, antes de ter visto a obra, havia ouvido falar dela. E muito mal - o que eu acho compreensivo. Digo isso, pois quem me contou sobre ela, acreditava ela ter sido feita da maneira que de fato parece ter sido: cortando-se pedaços do cachorro e aplicando-os a um homem. Certamente, ao saber disso,fiquei chocada. Achei a obra um absurdo, chamei o artista de todos os nomes e fiquei tentando buscar uma explicação para alguém transgredir o princípio da vida (por favor, não associem isso a minha opinião sobre abortos). Até porque, independente de quem se é, do que se gosta e se acredita, espera-se que todos, acima de tudo, respeitem a vida por uma questão ética. Afinal, antes a vida, depois a arte.


Seguidos alguns dias da conversa e, já recuperada da minha indignação, vi na Contracapa da ZH uma imagem que eu julgava ser referente a essa obra e, ao lado, um textículo explicando do que se tratava. Para o meu alívio, descobri que era tudo manipulação de imagem. Não resisti e entrei no site do artista para ver a obra completa. Repentinamente, minha opinião havia mudado:passei a achar a criação genial. Poxa, o cara fez uma obra tão bem feita, que fez eu e muitas pessoas acreditarem em um absurdo e, por conseguinte, ficarem perplexas (se não possessas). Talvez, com todos esses sentimentos que a obra nos provoca, Rodrigo estava querendo justamente protestar contra as aberrações que são feitas com animais em experiências científicas,por exemplo.

Mas, voltando à questão do making of da obra, não posso deixar de me perguntar o seguinte: por que a técnica interfere tanto na formulação da nossa opinião a respeito da arte? Será que Maquiavel estava certo quanto aos fins justificarem os meios? Se não justificam (como seria o caso se o Rodrigo houvesse sacrificado um cachorro),com certeza tem direta relação com eles.

Lembro-me de umas pinturas expostas na Casa dos Bancários na época da Bienal B, em que o aumento da minha admiração por elas se deu quando descobri que usava-se sangue para fazê-las. Pois é. Mais uma vez, os meios foram determinantes. E voltamos àquela velha história: não é a obra em si o que de fato importa? Não bastasse a teoria me importunar, agora vem a técnica?

Preciso de um descanso quanto a esse assunto.

Pulemos pra Elida:

A obra dela de que pretendo falar trata-se de um livro, "O Homem Sem Qualidades", cujos adjetivos foram riscados por ela (tendo um deles passado despercebido). Trata-se de um trabalho original e, acima de tudo (mesmo com a pequena falha que citei), minuciosíssimo. No entanto, acredito que nem toda originalidade, nem toda minúcia estão associados a qualidade artística. Fazer algo trabalhoso pode ser tanto encontrar uma agulha num palheiro, quanto pintar um quadro renascentista. Obviamente, entre as duas tarefas, a que agrega maior valor artístico é a pintura. Também seja possível ser original de infinitas formas, mais nem toda originalidade produz em nós algo novo: Duchamp foi extremamente criativo ao assinar um urinol e com esse ato inusitado provocou um questionamento que mudou os rumos da arte.

A questão é: na minha opinião, nem o preciosismo do trabalho da artista, nem seu caráter inventivo me tocaram. Talvez tenham sensibilizado outras pessoas (que essas, se souberem o porquê, se manifestem) e, em função disso, não posso dizer que o trabalho da Elida não seja arte. Quiçá meu senso artístico esteja mesmo atrasado e, conforme disse uma amiga minha,a estudante de artes visuais Luiza Abrantes, "Cada vez mais, principalmente depois do expressionismo abstrato, do minimalismo e do readymade de Duchamp, o literário serve como elemento constitutivo do trabalho. O discurso é cada vez mais necessário, e a Elida trabalha justamente isso, com a palavra. A palavra como matéria artística."

Todavia, mantenho meu ponto de vista. Por enquanto.

Sunday, June 08, 2008

"Sobre a nossa riqueza" ou "Sobre a nossa miséria"

Não que eu esperasse muito desse circo,até porque normalmente não gosto dessas coisas que deixam o povo eufórico. Desde o início achei muito sensacionalismo toda essa propaganda. Ouvia falar em filas quilométicas para se conseguir ingressos e não entendia porquê. Perguntei pra minha mãe e ela disse: "Acho que é porque essas coisas nunca vem pra cá". É,deve ser. No entanto, começou a virar o MUST assistir ao tal circo e, conseqüentemente, todas as pessoas com quem eu falava afirmavam ter ingresso ou estar se esforçando para conseguir.

Um ano depois de minha família ter efetuado a compra do ticket, estávamos lá sentadinhos ná penúltima fileira lateral. O circo começou e uma mulher com uma voz irritante iniciou sua cantoria. Ela cantou durante quase todo espetáculo e acho que deveria falar em uma língua fictícia, poque eu só entendia "ALLEGRÍA, ALLEGRÍA". Tá bom: sou bem chata pra música. Mas se esse fosse o único motivo pelo qual eu não havia gostado do espetáculo, não estaria aqui escrevendo.

Na minha opinião houve principalmente uma falta de investimento em estética: as roupas eram lindas, mas ficavam pouco valorizadas devido à falta de luzes; o cenário, praticamente inexistente. Tudo parecia tão sem vida... Será um excesso de brasileirismo sentir falta de cor? Ou será que eles não sabiam o significado da palavra ALLEGRÍA?

Independendo das respostas, acho que faríamos muito melhor - se tivéssemos dinheiro. E volto a reclamar da falta de investimento em cultura, pois não existe estética mais rica que a nossa e, ainda assim, ela passa despercebioda no mundo devido à indiferneça do governo em relação a ela. Ouvi dizer no Canadá quem sustentou o Cirque de Soleil nos seus primeiros anos foi o governo de lá. Já pensou? Nossa, o que se faria aqui se recebessemos dinheiro para... Chego a achar estúpida a situação.

Lembrei agora da abertura dos Jogos Pan-americanos lá no Rio: foi emocionante. Muita gente saiu criticando o que se gastou para obter tal efeito, mas fui completamente a favor. Tudo bem, existem muitos problemas no Brasil carecendo de atenção financeira; no entanto, não é o investir ou não numa abertura que os solucionará (ixi! tem muita coisa por trás a ser resolvida). Penso que é uma questão de honra ter uma abertura à altura daquela e acredito ser essencial que o mundo saiba da dimensão da nossa arte. Quem sabe, assim ele passe a investir na gente - já que nós mesmos não o fazemos.





A cantora chata do circo.


http://br.youtube.com/watch?v=jK3rnNtP2Nw&feature=related

(pra quem não lembra da abertura)

Friday, May 30, 2008

CONVITE

A Arte Elitista

Sempre achei as artes visuais as mais incompreendidas. Ao contrário do caminho que a música, o cinema e a literatura seguem, as plásticas tornam-se cada vez mais inacessíveis. E o pior de tudo: parecem se orgulhar disso.

Citarei a Bienal, pela vigésima vez: sua última edição conseguiu ser ainda mais complexa que já era, com obras ainda mais minimalistas e que exigiam elevadíssimo nível de raciocínio e cultura do expectador. Devido a isso, foi polêmica: houve aqueles que amaram e aqueles que odiaram. Eu odiei.

Mas, afinal, por que fazer uma exposição que somente um centésimo da população consegue apreciar. Pra que investir milhões nisso? Qual o retorno, quais os benefícios, que mudança fará na sociedade uma mostra tão elitista? Investe-se muito em algo que agrada a pouquíssimos.

A inspiração desse texto veio, para variar, de uma conversa. Durante ela, pasmei: contaram-me que uma professora do Instituto de Artes da UFRGS afirmou a Bienal ser voltada para colecionadores milionários de arte contemporânea. E disse isso com orgulho. Ouquei. Então por que defende-se tanto essa exposição como um tobjeto de prestígio cultural do Mercosul (que nem mais deste pode ser considerada, afinal, globalizou-se completamente)? Por que não se faz um leilão, bem menos divulgado, para essa minoria e não usa-se os principais espaços de exposição da cidade para expôr obras voltadas ao resto da população?

Não acho que seja necessário impedir a arte de seguir em frente e assim, penso que essas manifestações menos digeríveis devem continuar sendo estimuladas para amadurecerem. Porém, para que a população consiga acompanhá-la, deve-se investir em educação artística. Deve-se investir em mostras mais populares, em vez de colocar toda “energia cultural” do estado na Bienal. Talvez se o governo apoiasse a Bienal B, Essa POA é boa, entre outras do gênero, já seria meio caminho andado. Acontece que o Rio Grande do Sul é um dos estados que menos investem em cultura.

Tuesday, April 08, 2008

With a little help from my friends

Estava eu conversando com uma amiga a respeito da influência das drogas na capacidade criativa. Falamos então sobre como sabia-se que, sob o efeito de certas substâncias ilícitas, o inconsciente se apodera do indivíduo e o resultado do que se cria é muito mais original do que seria sem a "mãozinha" da química. Prova disso são os trabalhos de muitos músicos (Beatles e mais um milhão) e artistas plásticos (só mencionei essas duas expressões artísticas, pois meu conhecimento a respeito
disso é ainda mais limitado), como Basquiat.

Veio então à minha cabeça, uma indagação de molho há muito tempo: será que podemos avaliar o talento de um artista através de obras realizadas com a interferência de alucinógenos? Afinal, quem executa a obra nessas circunstâncias, é o subconsciente do artista e não ele, "ao natural", ou seja, lúcido. É incontestável que essa área da nossa mente é parte de nós, bem como o consciente. No entanto, aquele é justamente aquilo em que somos equivalentes , em termos de criatividade (um exemplo disso seriam os sonhos, que repleto de elementos em que nunca pensaríamos quando cônscios). Logo, sob o efeito da maconha, entre outras substâncias ainda mais "poderosas" , somos capazes de descobrir Picassos dentro de nós, tamanho o potencial criativo que suponho desconhecermos (nem todos, é lógico...).

Assim, afirmar que uma obra de arte originada do inconsciente de alguém é incrível, sensacional, mega expressiva, fantástica, poética, intensa, etc, etc, é, segundo Cindi, aceitável. Por outra perspectiva, atribuir a genialidade ao artista que a executou naqueças condições, não me parece justo. Logo, penso que grande mesmo é quem consegue, espontaneamente, digo, lucidamente, transverter o subconsciente para uma obra. Em outras palavras: ser criativo é não precisar daquela "ajudinha" para pôr, sem medo, no papel (ou na mídia que se preferir) o que vier à cabeça.


PS: Eu não odeio os Beatles, nem o Basquiat. Só acho eles meio trapaceiros....

PS II: Utilizei os termos "inconsciente" e "subconsciente" como sinônimos, pois sempre compreendi-os assim. Fui posteriormente pesquisar os significados e não entendi bem do que se tratam. Aceito correções/explicações.

Friday, February 08, 2008

Não sei bem como explicar a sensação borbulhante dentro de mim. Uma vontade enorme de criar, conhecer, aprender, que há muito, por esforços meus, eu não sentia. Isso mesmo, me forcei a não querer tanto, para conseguir descansar, para me permitir viver. Não que eu ache que ter ambições seja algo prejudiocial, só acho que não podemos deixar de viver apenas pensando no que será necessário fazer para concretizar certos planos.

Assim, foi após dois meses de férias antecedidas por um ano cansativo, que encontrei energias para saborear meus pensamentos. Foram muitos desenhos feitos, páginas lidas, e horas dormidas – que há um ano atrás eu não me daria o luxo – para que hoje, chegando em Porto Alegre, me viesse essa vontade tão grande de pôr a mão na massa. E, felizmente, o momento não poderia ser mais adequado: tenho uma semana para organizar meu quarto, arrumar malas e ficar imaginando as maravilhas do Continente Europeu, para onde irei na sexta feira próxima. Logo, daqui pra frente, criar, conhecer e aprender!

Bom, esta foi a minha filosofia de férias.
Por favor, conformem-se.

Espero voltar de viagem com algo mais consistente.