Wednesday, February 11, 2009

No meio do caminho - Ensaio sobre Benjamin Button

Acabo de chegar em casa do cinema. Assisti ao tão comentado "O Curioso Caso de Benjamin Button". Mesmo tendo ido com altas expectativas do filme, não houve frustrações e sim surpresas. A principal delas foi a maneira com que o filme me tocou. Não sou de chorar em filme, mas esse me obrigou a fazer um esforço enorme para conter as lágrimas ao término da sessão, quando quis esconder a maquiagem borrada do resto da platéia.

Também não sou dessas pessoas que se deixam levar pelas emoções e colocam o que tiver para fora, independente das circunstâncias, por mais inadequado que isso seja vindo de uma artista plástica. Dificilmente me sensibilizo com algo a ponto de imediatamente após ter tido contato com o mesmo - seja um acontecimento ou uma obra de arte - ir correndo desabafar, ou seja, expressar-me, ainda mais quando passa da meia noite. Fosse qualquer outro filme, peça, show ou exposição, já estaria no conforto do meu travesseiro, na segurança da minha rotina. Dessa vez não me contive, ignorei o relógio e decidi externar o que o filme produziu em mim.


......

Ao sair da sala de exibição, tudo que eu olhava parecia mais carregado de vida, lembranças, significados. Pessoas ao meu redor davam-me a impressão de estarem sendo levadas para um caminho do qual não escapariam:(nascer) crescer, envelhecer, morrer. Cada objeto me lembrava uma fase da minha vida e me fazia pensar em como tudo passou, como tudo escapou. Como nada pude, nem poderei controlar. Fraldas brotavam no meu campo de visão como para me lembrar de que eu já as usara e de que um dia as colocaria em alguém saído(a) de mim.




Enfim, a marcha inexorável dos anos, muito bem retratada no filme. Uma pessoa que nasce idosa -um bebê com rugas -, vive uma infãncia geriátrica - por sua aparência e pelas pessoas que o circundam numa espécie de asilo - em que conhece uma menina aproximadamente da sua idade, mas obviamente com aspecto infantil, chamada Daisy; e vai rejuvenescendo, à medida que muitos à sua volta vão envelhecendo e outros partindo (o que vai comovendo-nos conforme se dá o enredo). Seja Benjamin, o protagonista de crescimento invertido, seja o resto dos personagens , que representariam a população "normal", todos sofrem a ação do tempo e nada podem fazer para controlá-la. Exemplo disso é quando, já na reta final da história, Benjamin Button, fisicamente uma criança, é entregue aos cuidados de uma idosa chamada Daisy, a mesma com quem tivera um romance na época em que ambos se encontravam na metade do caminho.




Nessa metade é que parece se dar a lucidez dos personagens, de que nada seria pra sempre, de que cada um sofreria os efeitos da passagem dos anos e de que teriam de aceitá-los. Como dizia um professor que tive, é por volta dos quarenta anos, da metade da nossa vida, da metade do caminho, que nos deperamos com a pedra, metáfora da morte utilizada por Drummond ("No meio do caminho tinha uma pedra...."). Eu posso não ter tido ainda meu momento de esclarecimento da morte do alto (baixo seria mais adequado) dos meus dezessete anos, mas, com certeza, esse filme mecheu comigo nesse ponto, na idéia de finitude, na percepção de que pode-se passar a vida toda lutando contra o destino, mas na última hora é deixar-se levar, como foi repetido em frase semelhante no filme. Contudo, se estamos todos marchando para "lá"- seja onde for - talvez fosse melhor adotarmos essa política de permissividade durante toda nossa existência, e não só no último momento....

É provável que eu tenha sido influenciada por essa citação que se repetiu no filme, que não lembro exatamente o que dizia, mas terminava com "let go", que eu substituiria por "deixar-se levar". Deixar-se levar - pela vida, pela emoção - algo difícil, mas que estou exercitando nesse exato instante ao invés de seguir o script da minha rotina regida por despertadores, alarmes, lembretes de "dos and don´ts" e ignorar minha sensibilidade.


Benjamin e Daisy no início e na metade do caminho